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| Ciências
Sociais - Psicologia |
| O
Efeito dos Acontecimentos-Protótipo na Categorização
do Problema da Dependência do Álcool e da Droga
- Por Lu Ana |
| O
Efeito dos Acontecimentos-Protótipo na Categorização
do Problema da Dependência do Álcool e da Droga
- Por Lu Ana |
| ÍNDICE |
| Enquadramento
teórico |
Pág. 1 |
| Método |
Pág. 13 |
| Instrumentos |
Pág. 13 |
| Participantes |
Pág. 15 |
| Procedimento |
Pág. 15 |
| Resultados |
Pág. 16 |
| Discussão |
Pág. 21 |
| Referências |
Pág. 24 |
| Quadro 1 -
Histórias de Dependência de Droga |
Pág. 13 |
| Quadro 2 -
Histórias de Dependência de Álcool |
Pág. 14 |
| Quadro 3
- Categorias/Agrupamentos |
Pág. 19 |
| Tabela 1
- Cluster Membership |
Pág. 17 |
| Tabela 2
- Dendograma |
Pág. 17 |
|
| Resumo
|
| Estudo do processo
de categorização do problema da dependência do
álcool e da droga através dos acontecimentos-protótipo.
Foi realizado com base na análise das semelhanças
percebidas entre 20 histórias de situações de
dependência, 10 referentes a dependência de álcool
e 10 referentes a dependência de droga.
A amostra considerada resulta de uma população
de 60 participantes, 21 do género masculino e
39 do género feminino, de idades compreendidas
entre os 15 e os 60 anos.
Após análise de clusters efectuada, é escolhida
uma solução de 5 clusters dando origem a 4 clusters
distintos. Os resultados mostraram que os participantes
basearam os seus julgamentos de semelhança não
no grupo de características comumente partilhadas
pelos protagonistas das histórias mas em 4 desfechos
distintos: a manutenção da dependência do consumo
de álcool, do consumo de droga, a recuperação
e solução do problema e a consequência limite
do consumo. |
| Abstract |
This chapter examines
the categorisation processes in the domain of alcohol
and drug addiction through event-prototypes.
It was accomplished by analysing the similarities
perceived between 20 histories of addiction situations,
10 regarding alcohol addiction and 10 regarding
drug addiction.
The considered sample results of a population of
60 subjects, 21 male and 39 female, aged between
15 and 60 years old.
After performing a Hierarchical Cluster Analysis,
a solution of 5 clusters has been chosen, producing
4 distinct clusters. The data showed that the subjects
based their similarity judgements not on the commonly
shared features of the protagonists but on 4 distinct
endings: maintenance of addiction of alcohol consumption,
of drug consumption, recovery and solution of the
problem and limit consequence of consumption. |
| Enquadramento
teórico |
| Conceito
de Categorização |
"What, exactly is meant by the word 'category',
whether in Aristotle or in Kant and Hegel, I
must confess that I have never been able to
understand".
- Bertrand Russell: History of Western Philosophy
A categorização é o processo de compreender
o que um objecto social é, sabendo a que outras
coisas equivale e de que outras coisas difere.
O processo de categorização é o processo de
aplicação de rótulos verbais aos objectos ou
acontecimentos sociais que se apresentam no
mundo.
Allport (1962), apontou as características
gerais do processo de categorização:
- As categorias possibilitam a formação de
classes, e são estas classes que guiam as actividades
diárias das pessoas;
- Elas permitem a assimilação do máximo possível
de traços para cada classe;
- Favorecem a identificação, de forma rápida,
dos objectos a elas relacionadas;
- Impõem aos seus conteúdos uma série de processos
ideacionais e emocionais;
- Podem ser mais ou menos racionais.
A teoria clássica da categorização sugere
que:
- Uma categoria pode ser descrita através
de um atributo ou um conjunto de atributos ou
características que a definem;
- Estes atributos são individualmente necessários
e colectivamente suficientes para que um determinado
item possa ser identificado como um membro de
uma categoria;
- Isto significa que as fronteiras estão claramente
definidas (tudo o que for ou não for membro
de uma categoria é excluído);
- Que cada membro ou conjunto de membros de
uma categoria é igualmente representativo dessa
categoria;
- Que as categorias podem ser organizadas
hierarquicamente, em que as instâncias mais
específicas incluem todos os atributos dos níveis
mais abstractos, e incluem atributos extra que
os definem de uma forma ainda mais estreita.
No entanto, a partir dos trabalhos de Rosch
(1978) esta teoria é desafiada a partir de uma
série de evidências encontradas na literatura:
- A impossibilidade de especificar toda uma
lista de atributos que comporia e definiria
uma determinada categoria psicologicamente significante;
- O entendimento de que alguns membros de uma
dada categoria são mais representativos do que
outros elementos da mesma categoria e;
- O facto de nem todos os atributos serem igualmente
salientes para determinar os membros de uma
categoria.
Todos estes problemas incitaram um grande número
de cientistas a virarem o seu rumo para abordagens
alternativas ao pensamento tradicional sobre
as categorias, caracterizadas pelas Teorias
Probabilísticas ou do Protótipo.
As teorias probabilísticas da categorização
tentam resolver os problemas descritos a partir
da introdução de noções como a de "categorias
confusas" ou supondo a existência de "conceitos
mal-definidos". Esta concepção tem a sua origem
em trabalhos como os desenvolvidos por Rosch
e Mervis (1975) que procuram mostrar que:
- Os membros de uma categoria são percebidos
como mais representativos de uma categoria à
medida em que eles possuem um grande número
de factores característicos daquela categoria;
- Os factores característicos foram definidos
como aqueles factores que a maior parte mas
nem todos os elementos da categoria possuem.
Seguindo uma linha de raciocínio distinta,
os teóricos da abordagem da categorização através
de exemplares - a Exemplar Theory (Medin &
Ortony, 1989; Hintzman, 1986) - sugerem que
os percebedores categorizam o outro não a partir
das semelhanças com um protótipo abstracto,
que resumiria as características mais importantes,
mas sim a partir da semelhança com algum membro
específico que esteja armazenado na memória
e que contenha o conjunto dos factores definidores
daquela categoria (exemplar).
As abordagens comentadas até aqui enfrentam
dificuldades comuns: qual o tipo de semelhança
que se pode postular entre um novo objecto e
um protótipo ou um conjunto de exemplares? por
que consideramos um determinado factor e não
um outro para estabelecer a comparação? A resposta
a estas questões encaminha-se no sentido de
reconhecer que as semelhanças superficiais -
observáveis - entre os objectos são enganadoras
e capazes de levar a uma categorização inadequada
(Medin, Goldstone & Gentner, 1993). Pensando
assim, a semelhança deveria ser entendida como
uma consequência e não como um critério para
a categorização. Em resumo, duas coisas podem
ser consideradas semelhantes se o sujeito possui
uma boa teoria que justifique ver as duas coisas
como membros de uma mesma categoria.
Esta é a chamada teoria da categorização baseada
no conhecimento e pode ser ilustrada através
do trabalho de Medin e Shoben (1988). Em suma,
se as semelhanças entre os objectos não são
capazes de fornecer uma coerência entre os objectos
categorizados, as teorias parecem ser capazes
de fazê-lo, de forma que podemos supor que as
categorias se organizam em torno de uma estrutura
explicativa que vincula ordenadamente os factores
constitutivos da categoria.
Uma das mais recentes abordagens à teoria
da categorização é a chamada teoria da categorização
baseada na explicação, termo "umbrella" para
as diferentes teorias psicológicas da categorização.
Segundo esta abordagem - e segundo a proposta
de Murphy e Medin - é permitido um conceito
de categorização altamente flexível pois:
- Não é só a semelhança entre os membros de
um conceito que determina a distinção conceptual
mas algum tipo de enquadramento explicativo:
não são só os atributos, mas igualmente as diversas
relações existentes entre estes atributos e
entre o contexto explicativo dos sujeitos, a
fazer parte da construção e coesão das categorias
pois formam relações e ligações explicativas;
- A coerência e a natureza de uma dada categoria
emergem do conhecimento que está na base do
conceito, suportando essa categoria. Esta emergência
baseia-se somente na semelhança (Eisenck &
Keane, 1995);
- Aceita a noção de que os nossos conceitos
são sensíveis ao contexto e que variam de acordo
com as situações e finalmente reconhece que
a representação conceptual não é necessariamente
uniforme mas que varia de pessoa para pessoa.
A articulação entre as teorias clássicas e
as contemporâneas obriga-nos a sugerir que tanto
a semelhança quanto as teorias, o conhecimento
e a explicação devem conjuntamente ser considerados
como guias para o processo de categorização.
Em outros termos, deve-se postular a existência
tanto de factores superficiais como de factores
profundos no processo de categorização
|
| Categorização e
Protótipos |
|
Já se viu que,
embora as categorias sejam atribuídas com uma
certa clareza e de uma forma relativamente simples
quando se trata de objectos físicos, o mesmo não
ocorre no caso de objectos sociais. Pelo menos
dois elementos devem ser considerados: a natureza
dos próprios objectos, ou seja o grau de semelhança
com os protótipos armazenados na memória, e, por
outro lado, as características do sujeito.
A aceitação desta premissa permitiu o desenvolvimento
de uma nova concepção teórica acerca da percepção
dos outros e que encontra origem nas teorias probabilísticas.
As teorias probabilísticas surgem como uma visão
alternativa à teoria clássica pois propõem-se
colmatar algumas das lacunas consideradas (nomeadamente
os efeitos de tipicalidade e as fronteiras mal
definidas) e encontram-se associadas à estrutura
de categoria, defendendo que as categorias são
confusas ou pobremente definidas e que se organizam
à volta de um conjunto de propriedades ou clusters
de atributos correlacionados, que só são característicos
ou típicos de pertença a uma categoria.
A pertença a um grupo nas categorias probabilísticas
é graduada naturalmente (e não "todos ou
nenhuns") e os membros melhores ou mais típicos
têm propriedades mais características que os mais
fracos. Desta forma, as teorias probabilísticas
rejeitam a noção de atributos definidores e estão
perfeitamente familiarizadas com os efeitos de
tipicalidade, tão estranhos para a teoria clássica.
As teorias que defendem esta visão foram chamadas
de teorias dos protótipos e todas as teorias dos
protótipos sugerem que o protótipo é a base da
categorização.
Considera-se protótipo:
- uma representação típica abstracta contendo
características gerais de um padrão ou;
- uma imagem abstracta de uma instância típica
ou uma lista de atributos típicos;
- uma forma simples de representação sumária
e que corresponde à imagem ideal do membro perfeito
de uma categoria, ou ainda;
- uma colecção de propriedades que quase todos
os exemplos de uma categoria partilham, não necessariamente
todos.
Pode-se afirmar que no caso da categorização
de objectos sociais esta depende da presença de
protótipos. Isto ocorre porque sempre que se pretende
incluir um objecto numa dada categoria se presume
que as pessoas formem uma espécie de resumo relativamente
abstracto da categoria - ou protótipos, sendo
estes protótipos a própria base para a categorização
- e que seja efectuada uma comparação entre o
exemplar presente na situação e os protótipos
armazenados na memória, decidindo assim a inclusão
ou não na categoria a partir do grau de semelhança
entre os dois.
Considera-se ainda que a semelhança não é o
factor principal a ter em conta no processo de
decisão mas que os exemplares mais típicos atribuídos
para uma dada categoria são mais prontamente classificados
e facilmente aprendidos, pois acaba por haver
uma forte tendência no sentido em que o processamento
da informação se fundamente nas semelhanças entre
os componentes do seu próprio grupo e nas suas
diferenças em relação aos componentes pertencentes
a categorias externas.
Por outro lado, as teorias probabilísticas ou
do protótipo também nos podem conduzir a casos
menos claros: qualquer exemplo pode ter várias
características típicas mas não as suficientes
para qualificar claramente a pertença de um membro.
Por exemplo, em trabalhos pioneiros destinados
a clarificar a base estrutural de categorias confusas,
Rosch e Mervis (1975), submeteram sujeitos a listarem
propriedades de exemplos para uma variedade de
conceitos e descobriram que as propriedades listadas
para alguns exemplares ocorriam com frequência
em outros membros de categorias, enquanto outros
possuíam propriedades que ocorriam com menor frequência.
Mais importante ainda, que quanto mais frequentemente
aparecessem as propriedades de um exemplar dentro
de uma categoria, mais elevada seria a tipicalidade
avaliada para aquela categoria. A correlação entre
o número de propriedades características possuídas
e a avaliação da tipicalidade apresentava-se muito
alta e positiva.
Resumindo, os trabalhos de Rosch e Mervis relacionando
a tipicalidade ao número de propriedades características
colocou as teorias probabilísticas ou do protótipo
em solo relativamente firme.
Considerando-se o protótipo o tema central do
presente trabalho e tendo sido demonstrado que
o protótipo é a própria base para a categorização
de objectos sociais, é importante salientar igualmente
algumas das limitações que a teoria prototípica
apresenta:
- Primeiro que tudo, a teoria do protótipo trata
os conceitos como independentes de contexto. Rosch
e Shoben (1983) contudo, mostraram que os julgamentos
de tipicalidade variam em função de contextos
particulares.
Da mesma forma, Medin e Shoben (1988), alertaram
para o facto de que a tipicalidade de efeitos
combinados não pode ser prevista pela tipicalidade
dos seus constituintes.
A única maneira de um modelo prototípico suportar
resultados por vezes tão contraditórios é a de
posicionar protótipos múltiplos. Só que esta estratégia
cria novos problemas. É obvio que não se pode
ter um protótipo separado para cada por existirem
simplesmente combinações possíveis demais.
Poder-se-ia dizer que existem assim sub-tipos
distintos para alguns conceitos, mas aí seria
necessária uma teoria que descrevesse como e quando
são criados os sub-tipos. Os modelos actuais de
protótipos não fornecem uma teoria assim;
- Um segundo problema para as teorias dos protótipos
aparece de trabalhos de Barsalou (1985, 1987)
com as categorias derivadas de objectivos. No
seu trabalho, Barsalou descobriu que estas categorias
apresentavam os mesmos efeitos de tipicalidade
que as outras categorias. A base para estes efeitos
contudo, não é a semelhança a uma média ou protótipo
mas a semelhança a um ideal;
- Outra limitação da teoria do protótipo é a
de que os protótipos prevêem de uma forma errada
quais as estruturas de categorias que deverão
ser fáceis ou difíceis de aprender.
O aspecto chave da predição de tipicalidade
é que deverão existir algumas combinações aditivas
de propriedades e dos seus pesos que possam ser
usados para assinalar correctamente exemplos como
membros ou não membros. O termo técnico para este
problema é que as categorias deverão ser separadas
linearmente. Se a separação linear actuar como
um constrangimento à categorização humana as pessoas
achariam ser mais fácil aprender categorias que
sejam linearmente separáveis do que aquelas que
o não são.
Estudos desenvolvidos nesta área e que utilizaram
uma variedade de materiais estimulantes, tamanhos
de categorias, populações de sujeitos e instrução
falharam no sentido de encontrar provas de que
a separatibilidade linear actua como um bloqueio
à aprendizagem humana de classificação.
Resumindo, são três as principais limitações
da teoria do protótipo:
- Primeiro que tudo, o facto de nem todas as
categorias mostrarem possuir características de
protótipos, especialmente as categorias abstractas;
- Segundo, ao categorizar as pessoas não se
limitam a procurar propriedades que co-ocorrem
juntas, mas propriedades que co-ocorrem com as
consequências de se conseguir a categorização
certa;
- De longe o problema principal da teoria do
protótipo reside no facto de abordar o problema
da direcção errada pois a sua preocupação recai
no problema metafísico de "o que constitui
uma categoria".
Assim, a teoria prototípica implica elementos
constrangedores não observados na categorização
humana, prevê a insensibilidade à informação que
as pessoas prontamente usam e falha em reflectir
a sensibilidade contextual que é evidente na categorização
humana. |
| Protótipos
e Acontecimentos-Protótipo |
| A perspectiva
dos acontecimentos-protótipo é proposta como um
mecanismo eficaz para a investigação dos processos
de classificação e explicação pelo que apresenta
algumas respostas face às limitações da perspectiva
anterior.
Os acontecimentos-protótipo são conjuntos coerentes
e inter-relacionados de características que dizem
respeito:
- Ao tipo de pessoa que tipicamente desempenha
a acção;
- Ao acontecimento que tipicamente tem lugar;
- Ao método típico utilizado;
- Ás consequências típicas e por fim;
- Á explicação típica para o acontecimento. |
O conceito
dos acontecimentos-protótipo integra aspectos
da pessoa com várias características especificadas
do acto e do seu contexto e defende que existe
uma relação confusa entre estas e as outras características
de qualquer outro acontecimento-protótipo dado.
A natureza da pessoa, os objectivos relevantes,
o tipo de método utilizado, etc. não são arbitrários
mas são inter-relacionados funcionalmente através
de um grande número de explicações que formam
cadeias que ligam meios e fins. Logo, os acontecimentos-protótipo
fixam a ideia de "pessoa-no-contexto". Isto é
semelhante à extensão do conceito de protótipo
a situações sociais.
A ideia proposta é a de que o sujeito disporá
de esquemas relacionados com acontecimentos sociais
e que a categorização de um acontecimento particular
consistirá em encaixar as características do acontecimento
com as dos protótipos. Além disso, só a simples
categorização de um acontecimento poderá ser suficiente
para o explicar.
Quanto melhor for o encaixe entre uma instância
particular e o acontecimento-protótipo mais provável
será o acontecimento ser classificado como um
membro dessa categoria.
Uma vez que a explicação é uma das características
dos acontecimentos-protótipo, atribuir um acontecimento
a uma categoria em particular predispõe a pessoa
na direcção de uma ou de um pequeno número de
explicações.
Deste modo poder-se-á dizer que as funções dos
acontecimentos-protótipo são semelhantes às das
estruturas de conhecimento, no sentido em que
constituem formas altamente elaboradas de organização
da informação e de ajuda à compreensão.
Para Tajfel (1978), a categorização é um instrumento
de sistematização do ambiente com fins de acção.
Funções semelhantes foram propostas para atribuição
por Heider (1958) e Kelley (1973) sugerindo que
estas funções de atribuição implicam dar um significado
aos acontecimentos, o que nos ajuda a estabelecer
invariâncias e, como tal, a compreender os acontecimentos
e a agir no ambiente de uma forma coerente e sistemática.
Em todo o caso, as ligações entre a categorização
e a explicação têm sido grandemente ignoradas.
Para Aristotle e Bunge (1959), uma forma importante
de explicar um acontecimento passa por reconhecer
que um acontecimento é uma instância de uma classe
geral que inclui um conjunto particular de propriedades.
Se a categorização é ou não por si só uma forma
de explicação adequada, irá presumivelmente depender
das condições em que a questão é colocada e irá
depender em parte se a pessoa que coloca a questão
tem algum conhecimento da categoria para a qual
o acontecimento é atribuído.
Como já se viu, existem diferentes visões acerca
da natureza precisa dos protótipos: uns estão
mais inclinados para verem o protótipo como consistindo
em descrições separadas de alguns dos exemplares
da categoria enquanto outros o consideram como
uma parte de representação sumária de tipo probabilístico.
As teorias prototípicas (e as "exemplar") defendem
que a categorização envolve uma avaliação da semelhança
dos atributos de uma instância particular com
aquela do protótipo. Em todo o caso, existem sérias
objecções à noção de que a categorização se encontra
unicamente baseada na semelhança, tal como claramente
demonstrado através do trabalho de Rips (1989).
A abordagem do protótipo abre uma série de novas
possibilidades na compreensão de como as pessoas
categorizam os acontecimentos. Propõe-se que o
conjunto de explicações comuns de um acontecimento
é a característica central do protótipo. O encaixe
entre as características salientes de um acontecimento
e as características de um protótipo é crucial
quando um indivíduo decide como classificar um
acontecimento. A explicação de um acontecimento
está assim relacionada com a sua categorização.
O modelo da categorização-explicação que se tem
vindo a desenvolver no quadro dos acontecimentos-protótipo
fornece assim uma visão teoricamente coerente
baseada no conhecimento base que as pessoas têm
do mundo real e que liga a explicação directamente
à compreensão, focando-se principalmente nas relações
existentes dentro - e entre - os conceitos e que
os ligam uns aos outros e ao resto do mundo, permitindo
a coerência e a sensibilidade contextual da categoria.
O modelo da teoria do protótipo não fornece uma
visão assim.
Uma outra limitação apresentada pela teoria do
protótipo, e que está relacionada com a separatibilidade
linear, é a de que prevê de uma forma errada quais
as categorias que deveriam ser fáceis ou difíceis
de aprender. Wattenmaker, Dewey, Murphy &
Medin (1986) mostraram que a facilidade com que
as pessoas aprendem diferentes categorias é mais
afectada pela activação de relações inter-propriedade
subjacentes - explicações - do que pela separatibilidade
linear. Estas descobertas reforçam a importância
do conhecimento base extra e relacional para a
capacidade de categorização dos sujeitos, o que
é igualmente compatível com a abordagem da categorização-explicação
de acontecimentos-protótipo.
Em todo o caso, esta abordagem apresenta um potencial
defeito e que diz respeito à sua natureza fragmentária:
pode ser verdade quando se diz que para se perceber
as explicações de uma pessoa sobre um acontecimento
se deve primeiro tentar saber alguma coisa sobre
aquilo que pensa desse tipo de acontecimento,
uma vez que recorre a este conhecimento para o
explicar. Mas isto levanta duas questões: a primeira
é se os processos envolvidos na explicação de
acontecimentos são os mesmos para diferentes domínios
do conhecimento. A segunda questão respeita à
relação entre partes diferentes de conhecimento
num domínio particular.
Tendo por base as ideias expostas pretendo investigar,
através do efeito dos acontecimentos-protótipo
na categorização, quais os grupos ou clusters
formados através dos quais se poderá compreender
e interpretar o problema da dependência do álcool
e da droga. |
| Método |
| Instrumentos |
| Para a preparação
do instrumento foram efectuadas entrevistas gravadas
a 8 estudantes da Universidade de Évora e a 8
habitantes da população rural. Aos participantes
era pedido o relato livre de histórias, 3 relacionadas
directa ou indirectamente com o consumo de álcool
e 3 relacionados directa ou indirectamente com
o consumo de droga.
Ao todo foram gravados 48 episódios, tendo para
tal sido utilizado um gravador. Após transcrição
e análise de conteúdo efectuadas, foram seleccionados
para o instrumento final 20 histórias, 10 relativas
ao consumo de droga e 10 relativas ao consumo
de álcool. Os critérios de selecção das 20 histórias
têm por base aspectos relacionados com descrições
pormenorizadas sobre a natureza do protagonista,
forma de consumo, comportamentos, causas e consequências
para a sua vida, bem como descrições sobre a sua
situação familiar, profissional e económica. |
| Quadro 1 - Histórias
de dependência de Droga |
|
História 1
Cartão 10
|
"O Gustavo acusa a mãe de lhe ter dado
pouca atenção, não quis estudar, era o rebelde
da família. No início só consumia álcool
mas depois começou com os charros e tornou-se
toxicodependente. Viveu com a irmã alguns
tempos mas como a roubava ela pô-lo fora
de casa e ele foi viver para a rua. Entretanto
decidiu fazer tratamento e agora está com
os pais. O verão passado roubou-os. De vez
em quando aparece com a cara inchada, crê-se
que as companhias lhe batem." |
|
História 2
Cartão 12
|
"O Lucas
começou a ser abordado por amigos por causa
da droga e tornou-se toxicodependente. Como
os pais tinham dinheiro fez tratamentos
em vários sítios cá em Portugal. Quando
regressa geralmente não sai de casa. Um
dia, os amigos fizeram-lhe uma festa de
boas vindas e voltou ao mesmo. O mesmo aconteceu
várias vezes. Entretanto apaixonou-se e
está limpo. Agora tem uma filha." |
|
História 3
Cartão 14
|
"O Ricardo
era toxicodependente. Roubava dinheiro aos
pais que, por seu lado, o pressionavam para
ele deixar a droga e lhe diziam que o punham
fora de casa. Matou-se com um tiro na cabeça
e deixou uma carta em que falava da dependência
dele, do sofrimento, como se sentia ao acordar
de manhã..." |
|
História 4
Cartão 8
|
"O Costa
tem 30 e tal anos e anda desde os 18/20
na droga. Tem uma relação muito pouco saudável
com os pais. Trabalhou uns tempos com o
pai, mas entretanto a situação piorou e
o pai pô-lo fora de casa. Uma vez esteve
muito mal no hospital. Arranjou uma namorada
que também se tornou toxicodependente. Passados
uns tempos deixaram-se e ela foi viver com
outros homens." |
|
História 5
Cartão 16
|
"O Pedro
é toxicodependente. Desde sempre foi um
rapaz muito dependente e que queria chamar
a atenção. Deixou a escola cedo e sempre
puxou para más companhias. Os pais fingiam
que não reparavam no problema. Deixou os
amigos e a namorada e só se dava com drogados.
Mais tarde saiu de casa e foi pedir ajuda
para se tratar. Pensa-se que vai casar quando
sair da clínica." |
|
História 6
Cartão 20
|
"O Miguel
é agarrado à heroína. Anda sempre na rua
a arrumar carros e a pedir dinheiro. Está
muito magro e anda sempre com um aspecto
muito descuidado. Como roubava os pais eles
expulsaram-no de casa e teve que ir viver
para uma barraca. Ainda tentou uns tempos
viver num Centro de Assistência Social mas
como criava mau ambiente e era agressivo
teve que sair." |
|
História
7
Cartão 2 |
"O Gonçalo
tinha muito dinheiro, tinha carro e mota
e uma namorada muito porreira e entretanto
ficou completamente metido na droga. Um
dia suicidou-se com um tiro na cabeça e
deixou ficar uma carta de despedida." |
|
História 8
Cartão 18
|
"O Marco
estudava numa escola mas foi expulso. Primeiro
era só álcool mas depois tornou-se toxicodependente.
Posteriormente voltou à escola mas com a
condição de seguir um tratamento. Um dia
injectou-se na escola, uma colega viu-o
ele foi expulso de novo. Foi para outra
escola onde não era tão vigiado e o caso
piorou. Roubava os pais e a irmã e era espancado
pelos traficantes. Entretanto decidiu fazer
tratamento e agora está a trabalhar." |
|
História 9
Cartão 4
|
"O Jaime
estava metido em drogas pesadas. Por vezes
tentava resistir às companhias e dizia que
queria sair daquilo mas recaía sempre. Um
dia, quando estava em casa, um homem que
não conhecia chamou-o à porta. Estava acompanhado
de mais alguns e deram-lhe tanta pancada
que ele teve que ir para o hospital em coma.
Passados poucos dias morreu." |
|
História 10
Cartão 6
|
"O Francisco
estava envolvido na droga. Um dia disse
à mãe que o primo também já estava a caminhar
para o mesmo, que já estava envolvido e
que ia ficar desgraçado e foi o que aconteceu:
hoje ele está a dar muitos problemas aos
pais, tem-os roubado, não pode apanhar dinheiro
ou cheques, etc. Ainda começou a fazer tratamento
mas depois tentou enganar os pais e ficava
tudo na mesma." |
|
| Quadro 2 - Histórias
de dependência de álcool |
|
História 1
Cartão 1
|
"O João abusa do álcool e gosta de frequentar
os cafés e os bares para beber. A mulher
já teve vários problemas psíquicos e como
não ganha e vive dependente dele, está sempre
a controlá-lo. Como ele não gosta nada de
ser controlado ainda bebe mais. A filha
com 18 anos tem também vários problemas
por causa do alcoolismo do pai, isola-se
das colegas na escola, etc. O pai do João
também era alcoólico." |
|
História 2
Cartão 17
|
"O Manuel é um senhor maravilhoso quando
está sóbrio, só que quando se mete no álcool
fica insuportável: faz coisas que chocam
toda a gente e responde muito mal às pessoas.
Teve muitos problemas com a mulher e com
os filhos por causa do álcool. Como entretanto
descobriu que tinha uma doença teve que
parar de beber. Agora está muito melhor
mas tem alturas em que anda um bocado desesperado." |
|
História 3
Cartão 15
|
"O Luís não se dá bem com a mulher e também
não tem uma boa relação com os filhos por
causa do álcool. Houve alturas em que não
queria trabalhar, só queria beber. Ás vezes
chegava a casa bêbado e depois vomitava-se
todo e eles tinham que o levar. Por vezes
trabalha. Quando não está bêbado é uma pessoa
sociável." |
|
História 4
Cartão 13
|
"O José é um senhor de idade que vivia
numa aldeia chamada Borba, a terra do vinho.
Bebia muito e vivia em função de ter dinheiro
para o álcool. Não queria saber da família,
batia na mulher e maltratava os filhos.
Só queria ter dinheiro para beber. Um dos
filhos também bebe muito: tem cinco filhos
e também é igual ao pai, não quer saber
da família. Diz que bebe para se esquecer
dos problemas da vida." |
|
História 5
Cartão 19
|
"O Carlos pai da Joana é alcoólico em último
grau. A mãe está desempregada. A Joana não
foi para a escola durante uns anos mas um
dia, como não tinha possibilidades económicas
para frequentar outra escola foi para uma
escola que subsidia os alunos. A Joana ajuda
o pai em tudo o que pode, mas não tem um
bom relacionamento com ele: ele bate-lhe
e há maus tratos familiares." |
|
História 6
Cartão 11
|
"O Joaquim esteve em Goa muitos anos a
cumprir serviço militar. Veio com grandes
traumas pois esteve num campo de concentração,
quando as nossas tropas lá estiveram prisioneiras.
Começou a refugiar-se no álcool e a beber
bastante. Os problemas com o álcool afectaram
muito a sua vida familiar. Tem 3 filhos.
A mulher entretanto divorciou-se. O Joaquim
casou novamente e deixou de beber." |
|
História 7
Cartão 9
|
"O Guilherme era um homem de certa idade
alcoólico. Quando não tinha dinheiro para
comprar álcool pegava num limão ou numa
laranja e espremia para dentro de álcool
etílico e bebia. Tinha família. Deve deve
ter tido um problema grave qualquer na vida,
perdeu o emprego e não teve capacidade de
se tornar a levantar. Já morreu faz dois
ou três anos." |
|
História 8
Cartão 7
|
"O Emanuel era um homem que trabalhava
mas entretanto perdeu o emprego. Tinha 2
filhos e mulher. Começou a beber e tornou-se
alcoólico. A mulher entretanto pô-lo fora
de casa e foi morar para uma barraca. De
vez em quando aparece estendido no chão." |
|
História 9
Cartão 5
|
"Um homem de certa idade que quando está
bêbado, gosta de fazer de polícia sinaleiro:
mete-se no meio da estrada a fazer sinais
e põe-se a falar com ele próprio, diz que
é duas pessoas e que tem dois apelidos,
um é Gonçalves e o outro é Mota: "Sr. Gonçalves
práqui, Sr. Mota práli"..." |
|
História 10
Cartão 3 |
"A semana passada a senhora Helena veio
de carro a um funeral. Como estava um arame
atravessado na estrada teve que parar: vieram
uns rapazes bêbados e assaltaram-na. " |
|
| As 20 histórias
foram de seguida colocadas em cartões formato
A5. Utilizaram-se igualmente 4 caixas de cartão,
contendo as legendas Caixa 1, Caixa 2, Caixa 3
e Caixa 4, destinadas ao agrupamento dos cartões
por ordem de semelhança em grupos de 5.
Os agrupamentos formados por cada participante
foram posteriormente anotados em folhas de informação,
utilizadas igualmente para anotação de informação
pessoal, tal como idade, género, habilitações
literárias e local de origem. |
| Participantes |
| A amostra considerada
é constituída por 60 participantes, 21 do género
masculino e 39 do género feminino, com idades compreendidas
entre os 15 e os 60 anos. |
| Procedimento |
| Os 20 cartões,
cada um descrevendo uma história, eram colocados
aleatoriamente numa superfície plana junto das
4 caixas de cartão numeradas.
A cada participante era pedida a leitura das
histórias e o seu agrupamento por ordem de semelhança
em cada uma das caixas, fazendo deste modo corresponder
à Caixa 1 as cinco primeiras histórias que considerasse
mais semelhantes, à Caixa 2 as cinco seguintes
mais semelhantes e assim sucessivamente. Os resultados
de cada agrupamento eram finalmente anotados na
folha de informação. |
| Resultados |
| No sentido de estudar
a forma como os participantes agrupam as histórias
apresentadas, procedeu-se a uma Análise de Clusters
Hierárquica, utilizando a medida de Chi Quadrado
e sendo usado sequencialmente o método de agregação
Between Groups. Recorreu-se a este procedimento
estatístico por se pretender identificar e classificar
os dados iniciais em grupos relacionados e homogéneos.
Tal como se pode observar na Tabela 1 (Cluster Membership)
e na Tabela 2 (Dendograma), foi escolhida uma solução
de 5 clusters. |
| Tabela 1 - Cluster
Membership |
Case |
6 Clusters
|
5 Clusters
|
4 Clusters
|
3 Clusters
|
2 Clusters
|
|
1 |
1 |
1 |
1 |
1 |
1 |
|
2 |
2 |
2 |
2 |
2 |
2 |
|
3 |
3 |
3 |
2 |
2 |
2 |
|
4 |
2 |
2 |
2 |
2 |
2 |
|
5 |
4 |
1 |
1 |
1 |
1 |
|
6 |
3 |
3 |
2 |
2 |
2 |
|
7 |
5 |
4 |
3 |
1 |
1 |
|
8 |
3 |
3 |
2 |
2 |
2 |
|
9 |
2 |
2 |
2 |
2 |
2 |
|
10 |
3 |
3 |
2 |
2 |
2 |
|
11 |
6 |
5 |
4 |
3 |
2 |
|
12 |
6 |
5 |
4 |
3 |
2 |
|
13 |
1 |
1 |
1 |
1 |
1 |
|
14 |
2 |
2 |
2 |
2 |
2 |
|
15 |
1 |
1 |
1 |
1 |
1 |
|
16 |
6 |
5 |
4 |
3 |
2 |
|
17 |
6 |
5 |
4 |
3 |
2 |
|
18 |
6 |
5 |
4 |
3 |
2 |
|
19 |
1 |
1 |
1 |
1 |
1 |
|
20 |
3 |
3 |
2 |
2 |
2 |
|
| Tabela 2 - Dendograma
- Dendrogram using Average Linkage (Between Groups)
Rescaled Distance Cluster Combine |
 |
| Este dendograma
representa a aglomeração feita numa escala de
0 a 25. Observando o dendograma apresentado a
uma distância de 20 aceitam-se 5 clusters.
Decidiu escolher-se a solução com 5 clusters,
por ser o conjunto de clusters mais homogéneo
e mais significativo. Resumindo:
O cluster 5 (Situações de dependência de droga
e de álcool resolvidas) diz respeito a situações
de dependência cujo protagonista conseguiu ultrapassar,
através de formas semelhantes de resolução do
problema: ou porque se casou novamente, ou porque
se apaixonou, ou porque pediu ajuda para se tratar,
ou porque descobriu que tinha uma doença ou finalmente
porque decidiu iniciar tratamento e começar a
trabalhar. De notar que este cluster constitui
o grupo homogéneo que mais se repete, constando
em cada uma das possíveis soluções de clusters
apresentadas.
O cluster 4, formado por um único cartão, diz
respeito a uma situação de dependência de álcool
em que se descrevem os problemas base associados
ao consumo e em que há uma manutenção da dependência.
Este cluster é abandonado por ser considerado
outlier, ou seja, trata-se de um cartão com um
coeficiente elevado que se distancia mais de todos
os outros e que não se associa facilmente.
O cluster 3 (Situações de dependência de droga
não resolvidas e manutenção da dependência) diz
respeito a histórias base que caracterizam os
problemas associados à dependência de droga, sendo
geralmente situações as quais os protagonistas
tentam ultrapassar, quer porque iniciaram tratamento
quer porque começaram a trabalhar mas que não
conseguem recaindo e mantendo o mesmo comportamento
de dependência.
O cluster 2 (Consequência limite do consumo
de droga e álcool) corresponde a situações de
dependência que levaram os protagonistas à morte,
por suicídio, por violência física ou por doença.O
cluster 1 (Situações de dependência de álcool
não resolvidas e manutenção da dependência) diz
respeito a histórias de situações de dependência
que abordam os problemas base associados ao abuso
de álcool tais como violência e maus tratos familiares,
situação económica instável, entre outras. |
| Quadro 3 - Categorias/Agrupamentos |
|
Cluster
5
Situações de dependência resolvida
(Droga/Álcool) |
Cartão
11
"O Joaquim esteve em Goa muitos anos a
cumprir serviço militar. Veio com grandes
traumas pois esteve num campo de concentração
quando as nossas tropas lá estiveram prisioneiras.
Começou a refugiar-se no álcool e a beber
bastante. Os problemas com o álcool afectaram
muito a sua vida familiar. Tem 3 filhos.
A mulher entretanto divorciou-se. O Joaquim
casou novamente e deixou de beber."
Cartão 12
"O Lucas começou a ser abordado por amigos
por causa da droga e tornou-se toxicodependente.
Como os pais tinham dinheiro fez tratamentos
em vários sítios cá em Portugal. Quando
regressa geralmente não sai de casa. Um
dia, os amigos fizeram-lhe uma festa de
boas vindas e voltou ao mesmo. O mesmo aconteceu
várias vezes. Entretanto apaixonou-se e
está limpo. Agora tem uma filha."
Cartão 16
"O Pedro é toxicodependente. Desde sempre
foi um rapaz muito dependente e que queria
chamar a atenção. Deixou a escola cedo e
sempre puxou para más companhias. Os pais
fingiam que não reparavam no problema. Deixou
os amigos e a namorada e só se dava com
drogados. Mais tarde saiu de casa e foi
pedir ajuda para se tratar. Pensa-se que
vai casar quando sair da clínica."
Cartão 17
"O Manuel é um senhor maravilhoso quando
está sóbrio, só que quando se mete no álcool
fica insuportável: faz coisas que chocam
toda a gente e responde muito mal às pessoas.
Teve muitos problemas com a mulher e com
os filhos por causa do álcool. Como entretanto
descobriu que tinha uma doença teve que
parar de beber. Agora está muito melhor
mas tem alturas em que anda um bocado desesperado."
Cartão 18
"O Marco estudava numa escola mas foi expulso.
Primeiro era só álcool mas depois tornou-se
toxicodependente. Posteriormente voltou
à escola mas com a condição de seguir um
tratamento. Um dia injectou-se na escola,
uma colega viu-o ele foi expulso de novo.
Foi para outra escola onde não era tão vigiado
e o caso piorou. Roubava os pais e a irmã
e era espancado pelos traficantes. Entretanto
decidiu fazer tratamento e agora está a
trabalhar." |
|
|
Cluster 4
(Outlier)
|
Cartão 7
"O Emanuel era um homem
que trabalhava mas entretanto perdeu o emprego.
Tinha 2 filhos e mulher. Começou a beber
e tornou-se alcoólico. A mulher entretanto
pô-lo fora de casa e foi morar para uma
barraca. De vez em quando aparece estendido
no chão." |
|
|
Cluster 3
Situações
de dependência não resolvida
Manutenção
da dependência
(Droga) |
Cartão 3
"A semana passada a senhora Helena veio
de carro a um funeral. Como estava um arame
atravessado na estrada teve que parar: vieram
uns rapazes bêbados e assaltaram-na. "
Cartão 6
"O Francisco estava envolvido na droga.
Um dia disse à mãe que o primo também já
estava a caminhar para o mesmo, que já estava
envolvido e que ia ficar desgraçado e foi
o que aconteceu: hoje ele está a dar muitos
problemas aos pais, tem-os roubado, não
pode apanhar dinheiro ou cheques, etc. Ainda
começou a fazer tratamento mas depois tentou
enganar os pais e ficava tudo na mesma."
Cartão 8
"O Costa tem 30 e tal anos e anda desde
os 18/20 na droga. Tem uma relação muito
pouco saudável com os pais. Trabalhou uns
tempos com o pai, mas entretanto a situação
piorou e o pai pô-lo fora de casa. Uma vez
esteve muito mal no hospital. Arranjou uma
namorada que também se tornou toxicodependente.
Passados uns tempos deixaram-se e ela foi
viver com outros homens."
Cartão 10
"O Gustavo acusa a mãe de lhe ter dado
pouca atenção, não quis estudar, era o rebelde
da família. No início só consumia álcool
mas depois começou com os charros e tornou-se
toxicodependente. Viveu com a irmã alguns
tempos mas como a roubava ela pô-lo fora
de casa e ele foi viver para a rua. Entretanto
decidiu fazer tratamento e agora está com
os pais. O verão passado roubou-os. De vez
em quando aparece com a cara inchada, crê-se
que as companhias lhe batem."
Cartão 20
"O Miguel é agarrado à heroína. Anda sempre
na rua a arrumar carros e a pedir dinheiro.
Está muito magro e anda sempre com um aspecto
muito descuidado. Como roubava os pais eles
expulsaram-no de casa e teve que ir viver
para uma barraca. Ainda tentou uns tempos
viver num Centro de Assistência Social mas
como criava mau ambiente e era agressivo
teve que sair." |
|
|
Cluster 2
Consequência limite do consumo
(Droga/Álcool) |
"O Gonçalo tinha muito dinheiro, tinha
carro e mota e uma namorada muito porreira
e entretanto ficou completamente metido
na droga. Um dia suicidou-se com um tiro
na cabeça e deixou ficar uma carta de despedida."
Cartão 4
"O Jaime estava metido em drogas pesadas.
Por vezes tentava resistir às companhias
e dizia que queria sair daquilo mas recaía
sempre. Um dia, quando estava em casa, um
homem que não conhecia chamou-o à porta.
Estava acompanhado de mais alguns e deram-lhe
tanta pancada que ele teve que ir para o
hospital em coma. Passados poucos dias morreu."
Cartão 9
"O Guilherme era um homem de certa idade
alcoólico. Quando não tinha dinheiro para
comprar álcool pegava num limão ou numa
laranja e espremia para dentro de álcool
etílico e bebia. Tinha família. Deve deve
ter tido um problema grave qualquer na vida,
perdeu o emprego e não teve capacidade de
se tornar a levantar. Já morreu faz dois
ou três anos."
Cartão 14
"O Ricardo era toxicodependente. Roubava
dinheiro aos pais que, por seu lado, o pressionavam
para ele deixar a droga e lhe diziam que
o punham fora de casa. Matou-se com um tiro
na cabeça e deixou uma carta em que falava
da dependência dele, do sofrimento, como
se sentia ao acordar de manhã..." |
|
|
Cluster 1
Situações de dependência não resolvida
Manutenção da dependência
(Álcool) |
Cartão 1
"O João abusa do álcool e gosta de frequentar
os cafés e os bares para beber. A mulher
já teve vários problemas psíquicos e como
não ganha e vive dependente dele, está sempre
a controlá-lo. Como ele não gosta nada de
ser controlado ainda bebe mais. A filha
com 18 anos tem também vários problemas
por causa do alcoolismo do pai, isola-se
das colegas na escola, etc. O pai do João
também era alcoólico."
Cartão 5
"Um homem de certa idade que quando está
bêbado, gosta de fazer de polícia sinaleiro:
mete-se no meio da estrada a fazer sinais
e põe-se a falar com ele próprio, diz que
é duas pessoas e que tem dois apelidos,
um é Gonçalves e o outro é Mota: "Sr. Gonçalves
práqui, Sr. Mota práli"..."
Cartão 13
"O José é um senhor de idade que vivia
numa aldeia chamada Borba, a terra do vinho.
Bebia muito e vivia em função de ter dinheiro
para o álcool. Não queria saber da família,
batia na mulher e maltratava os filhos.
Só queria ter dinheiro para beber. Um dos
filhos também bebe muito: tem cinco filhos
e também é igual ao pai, não quer saber
da família. Diz que bebe para se esquecer
dos problemas da vida."
Cartão 15
"O Luís não se dá bem com a mulher e também
não tem uma boa relação com os filhos por
causa do álcool. Houve alturas em que não
queria trabalhar, só queria beber. Ás vezes
chegava a casa bêbado e depois vomitava-se
todo e eles tinham que o levar. Por vezes
trabalha. Quando não está bêbado é uma pessoa
sociável."
Cartão 19
"O Carlos pai da Joana é alcoólico em último
grau. A mãe está desempregada. A Joana não
foi para a escola durante uns anos mas um
dia, como não tinha possibilidades económicas
para frequentar outra escola foi para uma
escola que subsidia os alunos. A Joana ajuda
o pai em tudo o que pode, mas não tem um
bom relacionamento com ele: ele bate-lhe
e há maus tratos familiares." |
|
| Discussão |
|
Um protótipo é uma representação típica abstracta
contendo características gerais de um padrão,
e que corresponde à imagem ideal do membro perfeito
de uma categoria.
A perspectiva dos acontecimentos-protótipo é
proposta como um veículo eficaz na investigação
dos processos de categorização, uma vez que são
conjuntos inter-relacionados de características
e que dizem respeito ao tipo de circunstâncias
típicas que envolvem o acontecimento social. A
ideia proposta é a de que a categorização de uma
acontecimento particular consiste em encaixar
as características do acontecimento com as dos
protótipos.
No presente estudo verifica-se precisamente que
na própria fase inicial da construção do instrumento,
ao serem pedidos relatos livres de histórias de
situações de dependência, os participantes forneceram
explicações relativamente uniformes para as duas
formas de dependência e enumeraram um conjunto
relativamente uniforme de características, criando
assim o seu próprio protótipo de sujeito dependente.
Estas características, as mais típicas, vão desde
a descrição dos antecedentes de vida e natureza
do protagonista, as causas que consideram mais
típicas e que levaram o sujeito a tornar-se dependente,
passando pelos comportamentos que tipicamente
associam ao consumo, pelo ambiente típico familiar,
pela situação financeira típica até à descrição
do desenvolvimento típico do processo de dependência
e finalmente ao seu desfecho. Os participantes
que posteriormente interpretaram as histórias
eram então confrontados com o perfil de alguém
que tinha as características típicas de um tipo
particular de sujeito dependente e um cenário
típico que poderia ser um tipo particular de dependência.
Já no que se refere ao agrupamento propriamente
dito das histórias, e observando os dados obtidos,
verifica-se a tendência dos participantes para
basearem os seus julgamentos de semelhança, não
no grupo de características típicas comumente
partilhadas (como a natureza do protagonista,
etc.) mas na forma de desenvolvimento e desfecho
da situação de dependência, agrupando os protagonistas
em grupos bem distintos: os protagonistas dependentes
de álcool ou droga que conseguem ultrapassar a
situação, os protagonistas cuja situação de dependência
de droga não é resolvida ou ultrapassada e cujo
comportamento é mantido, os protagonistas dependentes
de álcool ou droga que morrem e por último os
protagonistas cuja situação de álcool nem é resolvida
nem ultrapassada mas mantida.
Importa salientar igualmente, a distinção claramente
efectuada pelos participantes entre os protagonistas
dependentes de álcool e os dependentes de droga.
O próprio conteúdo das histórias parece revelar
a existência de algumas diferenças básicas entre
estes dois tipos de dependência: a dependência
de droga está associada a casos considerados mais
graves, há mais tentativas de tratamento nos casos
de dependência de droga do que nos de álcool (principalmente
se a família é economicamente estável), geralmente
resultando em reincidência, há mais casos de morte
ou suicídio pelo consumo de droga que de álcool,
a hereditariedade é mais associada a casos de
dependência de álcool que de droga, a dependência
de droga existe mais frequentemente em pessoas
mais novas e a de álcool em pessoas mais velhas.
Em todo o caso, ambas as formas de dependência
parecem partilhar algumas características típicas
como: uma situação familiar e financeira instável,
a existência de situações traumáticas na vida
do protagonista, a falta de auto-estima traduzida
numa apresentação descuidada e falta de hábitos
de higiene e finalmente o facto de ambas atingirem
maioritariamente pessoas do género masculino.
Em geral, os resultados deste estudo reflectem
o facto de que os participantes mostraram um alto
nível de consenso acerca das características de
cada tipo de dependência e que perceberam os tipos
de dependência de maneiras determinadas - que
produziram diferenças claras entre e semelhanças
dentro de cada tipo de dependência - mas que consideraram
igualmente como um conjunto de situações que embora
semelhantes comportam desfechos diferentes.
A conclusão mais importante que sobressai deste
estudo é a de que a organização dos protótipos
quer da dependência de álcool quer de droga e
as suas características é sistemática. Os conteúdos
dos protótipos destes dois tipos de dependência
encaixa perfeitamente nas distinções primárias
encontradas na análise de clusters. Em todo o
caso os clusters são principalmente distinguidos
pela forma de desfecho das histórias. A natureza
da pessoa, os objectivos, o comportamento, o tipo
de método, etc., não são arbitrários mas são inter-relacionados
funcionalmente. Logo, os acontecimentos-protótipo
fixam a idéia de "pessoa-no-contexto" o que é
semelhante à extensão do conceito de protótipo
a situações sociais.
A noção de acontecimentos-prototótipo provou
ser um veículo importante no processo de categorização
da dependência do álcool e da droga: os acontecimentos-protótipo
não são distinguidos uns dos outros simplesmente
através de características isoladas: elas formam
um todo, são conjuntos coerentes de características
relacionadas entre si, as quais incluem as características
das pessoas típicas envolvidas, as explicações
típicas e assim por diante. |
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