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1
- Prefácio - A mistificação da realidade
2
- Contribuição epistemológica pare o estudo
das inter-relações estruturais/funcionais
3
- Perspectiva estrutural do desenvolvimento
cognitivo, afectivo e social
4
- Contribuições estruturalistas pare a
análise psicontológica
5
- Posfácio
1
- PREFÁCIO - A MISTIFICAÇÃO DA REALIDADE
O essencial
da realidade é o sentido. Para nós o que
não tem sentido não é real. As
parcelas de realidades só vivem na medida
em que participam de um sentido universal.
Exprimem-no velhas cosmogonias quando
sentenciam que no "principio era
o verbo". Para nós só o que tem nome
existe.
Nomear uma coisa equivale a englobá-la num sentido
universal.
Uma palavra isolada,
peça de mosaico, é produto recente e resultado
já da técnica.
A
palavra primitiva era divagação, à volta
da luz, um grande todo universal. Na sua
acepção corrente, rudimento de antiga
e universal mitologia.
Daqui a tendência
que mostra em regenerar-se, repelir, completar-se
para regressar ao sentido inteiro. A vida
da palavra.
A vida da palavra é tender para variavéis de combinações
como pedaços do corpo da serpente lendária
que se procuram, retalhados, no meio das
trevas.
Este
organismo complexo foi rasgado em vocábulos
solitários, silabas, discursos quotidianos;
e utilizado sob esta forma, fez-se instrumento
de comunicação.
A vida, o desenvolvimento
do verbo, foram arrastados ao caminho
utilitário, submetido a regras estranhas.
Mas dá-se uma regressão mal as exigências
da prática sofrem um abrandamento, mal
a palavra, liberta daquilo que a constrange,
é abandonada a si própria e restabelecida
nas suas próprias leis: tende assim a
completar-se, a reencontrar antigos laços,
o seu sentido, o seu primordial estádio
na pátria de origem das palavras.
Só então nasce
a poesia.
A poesia é um curto-circuito
de sentido entre todas as palavras, fluxo
inesperado de mitos primitivos.
Utilizando as palavras
correntes esquecemos que são fragmentos
de histórias antigas e eternas que estamos
como os bárbaros a construir a casa com
destroços das estátuas dos deuses.
Os
nossos termos e os nossos conceitos mais
concretos são seus velhos derivados.
Nas nossas ideias
nem um só atomo deixará de ser descendente
deles, uma mitologia transformada, estropia
alterada. A mais primitiva das funções do
espírito é criar contos, "histórias".
A
ciência sempre foi buscar a sua força
motriz à convicção de que pode encontrar,
depois de muitos esforços e no cimo dos
seus andaimes artificiais, o derradeiro
sentido do mundo que ela busca. Mas os
elementos que utiliza já serviram e provêm
de antigas histórias desmontadas.
A
poesia reconhece o sentido perdido, restitui
as palavras ao seu lugar, liga-as de acordo
com alguns significados.
Manejado
por um poeta, o verbo retoma consciência
de si próprio, do seu sentido primeiro
se assim podemos dizê-lo, vai desabrochar
espontaneamente e de acordo com leis próprias,
recuperar a sua integridade.
E
aqui está o motivo porque há-de ser toda
a poesia uma criação mitológica e tende
a recriar os mitos do mundo. A mistificação
do mundo ainda não terminou.
O
seu processo só foi abandonado por a ciência
se ter desenvolvido, foi empurrado a uma
via lateral onde vegeta com o sentido
totalmente transviado.
E a ciência, também
ela, não passa de um esforço para construir
o mito do mundo, pois o próprio mito está
contido nos elementos que utiliza, e não
podemos ultrapassar o mito
A
poesia apanha o sentido do mundo por dedução
e antecipação, a partir de grandes atalhos
e audaciosas aproximações. A ciência visa
o mesmo objectivo metódicamente e pela
indução, levando em conta todo o material
da experiência.
No
fundo ambas procuram o mesmo. Infatigável,
o espirito humano acrescenta à vida as
suas glosas os mitos infatigável, procura
"conferir um sentido" à realidade.
O
sentido é que leva os homens ao processo
da realidade. É um dado absoluto, impossivel
de deduzir de outros dados.
Conferir ao mundo um sentido é função indissociável
da palavra. A palavra é orgão metafísico
do homem.
Com o tempo a palavra fica congelada, deixa de veicular
novos sentidos.
O poeta confere às palavras a sua virtude de corpo
condutor criando acumulações onde nascem
tensões novas.
Os símbolos matemáticos são um alargamento da palavra
a novos domínios. E também a pintura é
um derivado do verbo, derivado que ainda
não era sinal, mas apenas história, mito,
sentido.
Em geral considera-se a palavra como
sombra da realidade, como reflexo. Mais
justo, porém é dizer o contrário! A realidade
é uma sombra da palavra. No fundo a Filosofia
é Filosofia, estudo profundo e criador
do verbo."
Bruno Schuzz,
Tratado dos Manequins ou o segundoGénesis,
pág. 5, 6 e 7, Editora & ETC., Série
E
2
- CONTRIBUIÇÃO EPISTEMOLÓGICA PARA O ESTUDO
DAS INTER-RELACÕES ESTRUTURAIS / FUNCIONAIS
"Inevitalvelmente
chegará o dia em que a análise estrutural
passará para a categoria de linguagem-OBJECTO
e será compreendida num sistema superior
que, por sua vez, a explicará...
Existe
aí uma necessidade que o estruturalismo
tenta precisamente compreender, ou seja,
falar: o semiólogo é aquele que exprime
a sua futura morte nos próprios termos
em que nomeou e compreendeu o mundo. N
(Roland Barthes in "Systéme de la Mode",
Seuil, 1967)
A
cibernética refere-se ao estudo de sistemas
de qualquer natureza, susceptíveis de
receber, guardar, explorar informações
e usá-las com a finalidade de controle
e ajustamento (auto-regulações cibernéticas).
Portanto,
as máquinas cibernéticas representam imagens
matemáticas tidas como hipóteses para
as estruturas internas dos objectos em
estudo, ou seja, um sistema abstracto
e simbólico usado como modelo ideal do
objecto estudado.
Este
paradigma deverá ser coadjuvado por uma
análise funcional pois um conjunto de
elementos (estrutura) só tem razão de
existirse serviu ou serve para alguma
função. Na relação terapeuta-paciente
a linguagem é de uma importância primordial
e como a linguagem é um sistema, logo
para a conhecer deve-se,para além de se
fazer análises estruturais (parcialmente
informativas), passar a estudar as relações
entre funções e estruturas, ou seja, criar
conceitos de significado e função.
Qualquer
estrutura deve portanto ser definida em
termos cibernéticos através dos seguintes
pontos:
1.
Sortimento de elementos básicos, com os
quais são construídas as estruturas especificas.
2.
Operações necessárias pare a construção
dessas estruturas, utilizando-se os elementos
básicos.
3.
Diagramas ou descrições estruturais das
estruturas construf das pare depots serem
relacionadas com as funções pare se poder
explicar os significados.
Esta
perspectiva epistemológica integra dois
níveis:
I - Diagrama descritivo das estruturas
do real a observar, e definição das operações
de construção e elementos básicos (pois
a estrutura não pode ser dissociada do
seu funcionamento e génese).
II
- Relacionar as estruturas com as funções
pare encontrar as inter-acções transformadoras
(já que um sistema é constítuido por várias
sub-estruturas).
As inter-acções
transformadoras são um sistema inter-relacional,
que modifica desde o principio uma sub-estrutura,
e ao mesmo tempo explica as variações
do todo (porque as estruturas consideradas
são abertas a trocas e imbuídas de significações,
embora sejam um sistema fechado com capacidades
de auto-regulação e de totalidade).
NOTA:
Com o diagrama seguinte tentamos, sinopticamente,
apresentar as inter-acções funcionais
e estruturais do sujeito psicológico com
a super-estrutura linguística, cerne do
problema analítico gerado entre dois seres
com significações distintas do Eu e do
Outro: o terapeuta e o paciente.
Isto porque a SOMA particular das sues
experiências vivenciais formam um TODO
único e indecomponível. Se as funções
estiverem pré-estabelecidas por um inconsciente
social que desempenha o paper de Super
Ego , qual a origem das estruturas?
2- PERSPECTIVA ESTRUTURAL DO DESENVOLVIMENTO
COGNITIVO AFECTIVO E SOCIAL
A
ligação possível entre a ontogénese e
o estruturalismo observa-se, hoje em dia,
em domínios que dificilmente imaginaríamos,
ou seja, no domínio da afectividade
e do simbolismo inconsciente.
Bally
que se ocupou do estudo do que ele denominou
de "linguagem afectiva" (cuja função é
reforçar a expressividade que se usa continuamente
na linguagem corrente) mostrou sobretudo
nela uma desintegração das estruturas
normais da língua.
Pelo
contrário, podemos perguntar se a afectividade
não possui a sua própria linguagem, hipótese
que sobre a influência de Bleuler e Jung,
Freud defendeu finalmente, depois de querer
explicar o simbolismo através de um jogo
de disfarces.
Só Jung via nos simbolos "arquétipos" hereditários enquanto Freud
procurava, com razão, a sua fonte na ontogénese
individual.
Com
Freud, o homem deixou de ser o centro
de si mesmo (que nem sempre existe, é
apenas um lugar vazio) e aprendeu que
ele próprio é constituido por uma estrutura:
a estrutura da linguagem.
O
inconsciente é irredutivel à consciência
e é caracterizado por uma independência
em relação ao tempo real e às categorias
da razão (coerência, não contradição,
etc.). O inconsciente é portanto, a partir
de Freud, já uma cadeia de significantes,
que algures se repete e insiste, para
interferir nos cortes que lhe oferece
o discurso efectivo.
Lévi-Strauss
considera que os fenómenos fundamentais
da vida humana são determinados por leis
de actividades inconscientes e considera
portanto que o inconsciente é um sistema
simbólico.
Esta
é também a tese que Lacan defende. Segundo
Lacan, existe um formalismo que domina
os comportamentos humanos e se realiza
neles sem que eles o saibam, a ordem do
simbólico não pode ser concebida como
constituída pelo homem, mas sim como a
ordem que o constitui.
Por conseguinte não é o mundo que nos
ensina mas a linguagem e se nos lembrarmos
da experiência de conservação dos líquidos
de Piaget, não é a repetição da experiência
que muda a opinião da criança que erra,
mas sim a descrição linguística da experiência
que, dando origem a afirmações contraditórias,
permite à criança compreender o erro.
Contudo
de modo algum ne pode confundir a perspectiva
de Lacan com qualquer hipótese idealista
e para isso recordemos a tese de Saussure
de que a linguagem não é uma substância
mas uma forma.
Para
Lacan, materialista rigoroso, a ordem
simbólica (a "razão natural" de Lévi-Strauss),
não consiste em conteúdos, mas em formas
significantes inteiramente vazias.
Esta atitude não é de modo nenhum teológica,
o que está em causa é o problema da origem
e sobretudo o da origem da linguagem.
Quando Lacan afirma que o homem fala,
pois, o simbolo o fez Homem, indica-nos
o nó da questão.
A
passagem da existência animal para a existência
humana fez-se pela instauração da ordem
simbólica e esta ordem simbólica é formalmente
igual á ordem da linguagem.
Vejamos os momentos essenciais da passagem.
Em
primeiro lugar a relação imaginária, a
realidade especulativa da relação entre
a mãe e a criança, a fusão entre sujeito
e objecto, entre o Eu e o Tu.
A descoberta capital de Lacan é o estádio
do espelho entre os seis e os dezoito
meses. A criança incapaz de se dominar
como organismo autónomo, ao olhar para
o espelho (ou para o Outro), vê nele a
unidade fulgurante da sua imagem, a presença
plena do seu Eu.
Em
segundo lugar, temos o momento simbólico
em que se institui a estrutura edipiana.
O Pai é o outro que intervem na relação
especulativa e aí introduz a ordem simbólica.
É
ao perceber que o Tu que para ele é o
pai (ou a mãe), é um Eu na comunicação
com a mãe, tal como a mãe é um "eu"
quando se dirige ao pai, e, portanto que
o "eu" e o "tu" são
permutáveis, são relações e não termos
que o sujeito entra no circuito da troca.
Ora
isto supõe que o sujeito se tenha constítuido
como "ele".
Situada
nesta posição a criança é excluída da
comunicação ao mesmo tempo que é integrada
nela. Isto supõe para ela a passagem por
uma primeira morte: a experiência do nada.
Portanto,
a passagem do reino animal ao reino humano,
é a passagem da Natureza à Cultura produzida
pela instauração da lei que é a proibição
do incesto. O objectivo da proibição é
evitar a coincidência entre as relações
de parentesco e as relações de aliança.
Sem
esta distinção seria impossível a cada
um de nós saber quem era e qual a sua
posição em relação aos outros, diluir-nos-‑íamos
na promiscuidade total.
Por
conseguinte, a sociedade tem uma origem
simbólica.
Proibindo o incesto, o Pai instaura a Lei e a Lei
é a ordem da linguagem que vai constituir
o sujeito. Daqui surge a importância do
nome como lugar em que cada um de nós
se vai inserir e encontrar.
O
complexo de Édipo, diz Lacan, na medida
em que é reconhecido pare cobrir com a
sua significação todo o campo da nossa
experiência serve para marcar os limites
que a psicanálise atribui à subjectividade,
isto é, o que o sujeito pode conhecer
da sua participação inconsciente nos movimentos
das estruturas complexas da aliança, verificando
os efeitos simbó1icos na sua existência,
do movimento tangencial em direcção ao
incesto.
A
Lei Primordial, que é a que regula as
leis da aliança, faz-se conhecer como
idêntica à ordem da linguagem, porque
nenhum poder sem as denominações de parentesco
seria capaz de instituir os tabús que
tecem através das geracões o fio das linhagens.
E
é precisamente a confusão das gerações
que quer na Biblia como em todas as leis
tradicionais, é amaldiçoado como abominação
do Verbo e desolação do pecador. A grande
descoberta de Freud é a incidência na
Natureza do Homem, das suas relações com
o simbólico.
E se a ordem simbólica é constituida pelo Outro (o terceiro, o Pai, a Lei)
compreende-se a fórmula central de Lacan:
o Inconsciente é o discurso do Outro.
Podemos,
portanto, dizer que a exterioridade do
simbólico em relação ao Homem, constitui
a própria noção de inconsciente e esse
é o grande escandâlo da sexualidade Freudiana,
o seu carácter intelectual, o inconsciente
não sendo o primordial nem o instintivo,
de elementar só conhece os elementos do
significante.
Para Lacan, a relação entre inconsciente
e linguagem é absoluta, o momento em que
o desejo se humaniza é aquele em que a
criança nasce para a linguagem, porque
a palavra mata o objecto.
A
palavra não nos dá a presença do objecto
mas a ausência dele. Para descrever uma
flor, cada palavra que associamos à precedente
revela-nos apenas a ausência do objecto.
Mas cada palavra a mais é a permanência
itinerante dessa ausência, e, no final,
o que nos fica não é a flor mas
"l'absence de tous bouquets" (Mallarmé).
É
este obiecto elidido pela linguagem que
constitui o objecto do desejo. O simbolo
manifesta-se primeiro como a morte da
coisa e esta morte constitui, no sujeito,
a eternização do seu desejo.
Daí
a diferença entre necessidade e desejo,
a necessidade é algo biológico e o desejo
algo de intelectual. A necessidade esgota-se
na sua realização, o desejo anuncia na
própria morte o seu retorno inevitável.
É o desejo que aponta no Homem o que nele
há de essencial: a ausência.
O
que a análise de Lacan nos ensina é a
excentricidade radical do sujeito a si
mesmo, que se manifesta na disfuncão entre
o sujeito do enunciado e o sujeito que
enuncia. O Homem não está no centro de
si mesmo, porque o eixo dos significantes
não coincide com o eixo dos significados.
3
- CONTRIBUIÇÔES ESTRUTURALISTAS PARA A
ANÁLISE PSICOPAPATOLÓGICA
Se considerarmos
a psicanálise clássica (ou ortodoxa),
verifica-se que ela se caracteriza, na
história da psicologia moderna, por dois
aspectos que poderão servir de obstáculo
ao progresso do conhecimento. Esses aspectos
são, em primeiro lugar, a apresentação
da teoria como totalitária na psicologia
devido aos pressupostos egocêntrico/narcísicos
dos conceitos por ela utilizados e, por
defensivamente, acusar os que a contrariam
de medo face aos seus fantasmas afectivos.
Os
próprios clientes enfrentam os perigos
de projeccões, por parte do terapeuta,
que determina os significantes em função
dos significados que ele próprio lhes
costuma atribuir.
Embora Freud tenha alertado
para a necessidade da inter-relação psíquica
(segundo um aparelho intra-psíquico) e
físico (em que o ID encarnava o desejo
ainda não-intelectualizado), os psicanalistas
apoiam-;se sobretudo numa grelha de conteúdos
essencialmente traumáticos sem consideração
pelos aspectos fenomenológicos existenciais.
Mas para que o conhecimento progrida, no sentido do
esclarecimento, é necessário que os conceitos,
constituintes de qualquer teoria, se baseiem
na realidade embora esta seja, muitas
vezes, um constructo individualizado porque
tendemos a dar significações às coisas
e aos seres, de acordo com o nosso Eu
(considerando este Eu segundo a perspectiva
fenomenológica / existencialista).
Se
nos basearmos nos psicológos gestaltistas
- como Kohler, Koffka, Wertheimer e Guillaume
enter outros, designaremos pela palavra
estrutura as configurações naturais do
campo perceptivo. Se as formas perceptivas
forem consideradas como estruturas de
correlação - estruturas objectivas - dotadas
de qualidade, os elementos não têm existência
independente e cada elemento é função
do Todo em que se situa e, só por isso,
assume um significado.
Assim
uma estrutura de significação é algo em
função do qual um elemento do mundo assume
um significado para um sujeito; supõe
e implica uma relação essencial e existencial
entre o sujeito e o seu Universo. Só a
estrutura podeconferir sentido àquilo
que estrutura.
O
ciúme, por exemplo, é uma estrutura estruturante
fruto de um conjunto de atitudes que são
a estrutura perceptivo -afectivo -comportamental
do sujeito.
No esforço mais elementar para compreender
alguém, o passo mais simples e mais imediato
- no qual está encerrada toda a psicologia
- consiste em compreender de forma sempre
aproximativa, o que é que as coisas, os
seres, os acontecimentos... significam
para Outrém (Roger Mucchielli)
Compreende-se
portanto que numa relação terapêutica
a preocupação se centre na análise da
situação- outra segundo a significação
que esta tem para nós. E a tolerância
pelo "direito á diferença" na
significacão da comunicação decresce conforme
o indivíduo observado se aproxima
mais da nossa cultura. Será que nos tornámos
prisioneiros das significações já que
- tal como foi dito - cada ser funciona
como um universo fechado quan do comunica
com um Outro universo fechado?
A
informação tal como vai buscar sentido
ao contexto psicossocial também modifica
esse contexto.
Um
exemplo de opções individuais que constituem
um centro activo de difusão de sentidos
encontra-se na consciência mórbida,
no alienado.
A sua conduta é, para nós, tão opaca como a sua consciência
porque todas as significações do mundo
mudaram, para ele, de sentido. Mas o Absurdo,
tal como o Enigma, tem um sentido completo
mas oculto para todos os não-iniciados.
A insignificação deixa de existir a partir do momento
em que a nossa consciência apercebe o
sentido do insignificativo que passa,
assim, a ser um significado.
A
língua, ao ter um sistema próprio
de estruturação da comunicação determina
um tipo de consciência colectiva e uma
determinada cultura.
Transculturais
são os "arquetipos" das situações
humanas específicas e fundamentais a que,
anteriormente, se dava o nome de "instinto".
Porque
a necessidade não tem nunca por objectivo
um objecto individualizado mas sim uma
categoria de realidades, ao sentir a necessidade
o indivíduo define uma categoria
activa, em função da qual selecciona os
elementos do seu meio ambiente que correspondam
à sue necessidade e adopta, em seguida,
um esquema de comportamento que o impele
ao acto realizador _ no meio ambiente
molda‑se de acordo com o ser do
organismo. (Goldstein)
O
"estado mental" de um sujeito corresponde
às significações que esse sujeito atribui
ao seu meio ambiente, de tal forma que
caracterizar essas significações equivale
a caracterizar o estado mental do sujeito.
Cada
carácter opera no campo do meio ambiente,
em função da sua estrutura e a um nivel
não consciente, uma selecção das situações
e um reagrupamento das mesmas em conjuntos
significativos valorizados ou desvalorizados,
e isto em relação permanente com os tipos
de comportamento, ou antes, esquemas posturais
comportamentais que equivalem às disponibilidades
individuals de acção e reacção.
O
humor, que deve ser considerado em função
dos nossos modelos culturais, é um fenómeno
de conteúdo geral caracteristico do estado
global da nossa experiência vivida -a
que corresponde "uma disposição afectiva
fundamental" - assim como à totalidade
dos valores especificos que façam parte
do nosso mundo.
Na
doença mental o humor torna‑se prevalecente,
intensificando-se tanto mais, quanto se
organize de forma rigida, submergindo
todos os meios racionais de apreensão
do real, todos os meios criticos intelectuais
de rectificação e de controle, impossibilitando
assim a adaptação.
Na
psicose maníaca, por exemplo, o sujeito
transpõe o seu Eu de tal maneira para
o exterior que elimina a distância entre
o Eu e o não-Eu, tentando misticamente
incorporar, ou assimilar, o maior número
de emoções disponíveis talvez porque se
sinta incapaz de as sentir, de as estruturar
e, assim, as situações deixam de ter "diferenças
significativas" na expressão de humor.
Na
psicose melancólica o sujeito centra o
seu pensamento em ideias mórbidas de culpabilidade,
de desespero e necessidades de suicídio.
O seu humor depressivo/melancólico
corresponde a uma deterioração de todas
as significações - unicidade rígida da
estrutura.
O
exemplo da paranóia : para o pensamento
do paranóico o objecto passa a representar
um sentido geral porque não se
fixa no valor concreto dos objectivos,
mais ainda do que o da mania ou o da melancolia,
evidencia as noções de sistematização
do Universo perceptivo-interpretativo.
Melanie
Klein detém a ideia de que a psicose constitui
o fundo da afectividade dos homems, porque
todos os "universos privados"
parecem conter zones significativas, no
interior dos quais a existência é tematizada
por certezas muitas vezes bizarras.
Assim
as atitudes afectivas, de grande importância
na psicopatologia, orientam simultaneamente
a percepção e a acção, e cada "forma"
oferece um certo grau de resistência à
sua própria transformação. Uma nova organização
estrutural de uma situação é extremamente
difícil porque esta está impregnada de
outra organização.
NOTA: A evidência
da importância do sujeito como bio-fisiológico
é tão indiscutível que nos debruçamos
- quase exclusivamente - sobre um dos
campos não privilegiados em psicopatologia:
a afectividade, considerando esta como
uma super-estrutura relacional do sistema
psíquico/social.
4
- PÓSFÁCIO
"(...) Vi sempre
o mundo independente de mim.
Por trás disso estavam
as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro
mundo.
Contudo
a minha mágoa nunca me fez ver negro o
que era cor de laranja.
Acima de tudo o
mundo externo!
Eu que me aguente
comigo e com os comigos de mim. (...)"
FERNANDO PESSOA/Poesias
de Alvaro de Campos |