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Entrevista,
dada a Sara Aleixo sobre a capacidade autonómica
de cada pessoa , que tem como contraponto a
afiliação (necessidade de depender
de outrém), lendo também, por
outro lado, a tendência para o sucesso
(achievement capitalista), que tem duas componentes,
a força para o sucesso e a força
para o poder.
Verifica -se, nos testes aplicados,
que a nossa população portuguesa
tem grande pendor afiliativo, o que implica
baixa capacidade autonómica. Por outro
lado, verificou-se uma maior força de
poder do que força para o sucesso.
Sara Aleixo
- A pergunta principal, que está na base
desta entrevista, é sobre a autonomia.
O que é a autonomia?
Charlie - O que é a
autonomia...Vai ser difícil, vai ser
uma longa viagem...há muitas coisas...
Sara Aleixo
- Há vários sentidos, não
é?
Charlie - Sim, para mim autonomia
...põe a grande questão, isto
irá começar na autonomia e acabar,
penso, na liberdade.
Depois a questão tem que ser posta a
nível pessoal, a nível de inter-relação
e a nível das estruturas ideológicas
sociais, é um bocado complicado!
Sara Aleixo
- Ideológicas?
Charlie - Sim, há sempre
uma estrutura ideológica cultural que
condiciona a autonomia intra-individual, a autonomia
de cada um.
Vamos lá ver, se eu lhe arranjar uma
definição, autonomia talvez seja...
é capaz de ser a capacidade de desenvolver
uma tarefa, um pensamento, um objectivo, referenciando-me
mais em mim próprio do que a uma fonte
externa.
Portanto, as pessoas que não têm
muita autonomia, para realizar qualquer coisa
têm que perguntar àquele que consideram
o chefe, o que é pressuposto ter autonomia,
e isso varia dentro das várias culturas.
Sabe-se, cientificamente, que
os americanos e os ingleses têm uma maior
capacidade autonómica.
E houve um indivíduo
que foi estudar isso para tentar descobrir porque
é que essas pessoas eram tão autónomas...
há uma obra que se chama A Ética
do Protestantismo e o Espírito do Capitalismo,
do Max Weber, que vai encontrar uma relação
entre a autonomia cultural dos adultos, numa
determinada sociedade, com a educação
muito precoce das infâncias.
E verificou-se que as culturas mais latinas,
a Europa do Sul, nas Américas do sul,
nas Índias, não desenvolvem, nas
crianças até à idade de
um ano e meio, uma grande autonomia, enquanto
os americanos são muito mais autónomos,
porque obrigam as crianças até
um ano e meio a tomar uma série de tarefas,
como saber arrumar a sua roupa, saber vesti-la,
saber comer com faca e garfo, a fazer uma série
de tarefas com a ausência do pai ou da
mãe, que as vai fazer ganhar muita autonomia,
precisamente devido a essa situação.
Mas estes autores não
desligam a autonomia de uma outra série
de factores.
Eles estudaram quatro factores, estudaram o
que era a tendência para o sucesso, depois
põem a autonomia e um contraponto da
autonomia, que é um outro factor chamado
afiliação. Afiliação
não tem a ver com pai e filho, e tem...
afiliação quer dizer, exactamente,
necessidade de outrém para agir. Puseram
estes dois factores como dois pontos que definiam
a tendência para o sucesso.
Claro que nós, com este
chavão tendência para o sucesso,
não nos podemos desligar de todo, do
modelo espiritual estrutural capitalista, não
é? Portanto, a própria tendência
para o sucesso é analisada em função
do modelo capitalista.
Sabe-se que, num modelo capitalista, quem estiver
inserido nele, para ter sucesso, tem que ter
muita autonomia, pouca afiliação,
tendência para o poder e tendência
para o sucesso. São, no fundo, estes
quatro factores que definem a tendência
para o sucesso, sendo um deles a própria
tendência para o sucesso.
McClelland, um que aplicou
estes estudos a nível mundial, veio a
descobrir que os americanos, por exemplo, têm
uma grande tendência para a autonomia
e para o sucesso e para o poder, a Europa do
Norte apresentava também valores com
grande tendência para a autonomia.
Depois aparece a Europa do sul, as Ásias
e etc., em que as pessoas têm pouca autonomia
e são muito afiliativas, ou seja, para
agirem dependem muito dos outros e, por outro
lado, já porque os modelos culturais
capitalistas são menos desenvolvidos
aqui, têm também menos tendência
para o sucesso e menos tendência para
o poder.
E também, talvez, porque o poder seja
muito estruturado e estável nesses países,
mais fascista, talvez.
E, afinal, nos países mais democratas,
em que a democracia é mais interactiva
e menos fascista, as pessoas têm muito
mais autonomia e querem agir e depois isto acaba
na liberdade.
O público latino, desde
a Europa do sul e por aí abaixo, vive
o que eu chamarei uma democracia fascista, porque,
precisamente, não exerce a sua tendência
para a autonomia.
"
Votam pura e simplesmente nos políticos
e estes acabam por fazer o que querem e não
há interacção".
Enquanto nos outros países, onde as pessoas
apresentam níveis de autonomia mais elevados,
existe uma grande interacção entre
o sistema político e o povo.
Convencionou-se a chamar democracia a tudo isto,
mas não é, há uma grande
diferença, mas que depois se vai descobrir
que tem a ver com esses tais factores.
É a falta de autonomia,
a falta de tendência para o sucesso e
a... a... Eles estão separados. A tendência
para o sucesso e para o poder está relacionada
culturalmente e gera, não sei se é
bom se é mau, mas gera uma maior adaptação
ao sistema estrutural capitalista.
E o funcionar por si próprio e o ter
valores de liberdade democrática e de
liberdade política, jogam com a autonomia
e com a afiliação.
Os latinos como são
muito afiliativos e têm a tal sociedade
capitalista menos desenvolvida, terão
sempre estes factores em valores inferiores
aos outros, que têm a tal educação
precoce, voltando ao princípio, ao Max
Weber.
Mas isto é o ovo e a galinha, ( que não
duas unidades distintas mas um só processo)ou
seja, se a sociedade é muito desenvolvida
culturalmente e as pessoas têm muita autonomia,
logo essas pessoas geram esse sentimento nas
crianças e isto é sempre imparável.
O que isto dá, em termos
estatísticos, é que cada vez mais
os países mais desenvolvidos vão
ter mais, porque isto é uma progressão
aritmética em termos lógico-matemáticos
e, portanto, cada vez mais vai haver uma distância
em relação aos povos que têm
baixo desenvolvimento.
E isto nunca mais acaba.
E, em última análise,
a questão da autonomia leva-nos ao comunismo
primário.
Ou seja, quando se chegar a um nível
cultural mundial que a Internet e as comunicações
facilitam por um lado, mas diminuem por outro
(depois talvez explique isto mais à frente),
mas, de qualquer maneira, quanto mais se desenvolverem
os meios de comunicação, cada
vez mais irá aumentar a autonomia pessoal,
quanto o sistema educativo se desenvolver nos
vários países, mais se irá
desenvolver esta questão da autonomia.
E, voltando à questão
do comunismo primário, vamos chegar à
tal sociedade anárquica, no dia em que
as pessoas tiverem super-valores autonómicos
e, se calhar, já terão reduzido
os valores do sucesso e do poder, porque penso
que a evolução social também,
daqui a milhares de anos, irá desviar
a estupidez de caminhar para o sistema capitalista,
em que se tem tudo materialmente e nada espiritualmente.
E, como eu penso que também
vai haver, nas próximas centenas de anos,
alguma mudança no sentido de vida, precisamente,
devido às comunicações,
as pessoas vão começar a eleger
outros valores como o ócio criativo,
a criatividade, a liberdade, o tempo disponível,
se calhar vão reduzir as horas de trabalho,
as pessoas virão a ter mais autonomia,
e, depois chega-se àquilo que eu queria
dizer, que eu não correlacionei ao princípio,
mas há aqui um outro princípio
que tem de ser correlacionado com isto tudo,
em termos pessoais, que tem a ver com a responsabilidade.
No fundo, responsabilidade
é um sinónimo de liberdade, quando
se atinge o limite das duas coisas. Porque,
autonomia é a responsabilidade de fazer
as coisas sem prejudicar a outra pessoa que
está à nossa volta.
Quando o mundo atingir um super-nível
de autonomia mas com este sentido da responsabilidade,
haverá a eliminação do
factor principal da destruição
humana, que é o poder. O poder só
existe porque as pessoas não têm
autonomia.
No dia em que as pessoas chegarem a um nível
total de autonomia, não precisarão
de líderes, de poder, e aí se
chegará, talvez, ao tal comunismo igualitário,
equitativo, da distribuição de
bens.
Nos próximos duzentos
ou trezentos anos, a lógica capitalista
irá destruir, totalmente, o valor espiritual
e a humanidade, e há-de chegar à
altura em que sofre um choque e vai ter de começar
a procurar novos valores espirituais.
E, se calhar, é essa
autonomia... porque a autonomia também
nos vai desligando da estrutura cultural dominante
, não é? E, cada vez mais, vamos
pensando mais por nós próprios
e menos pelo que a cultura e a estrutura do
poder nos manda pensar.
E isso traz a tal sociedade bonita, em que as
testemunhas de Jeová acreditam, em que
os leões pastam ao pé das pessoas,
isto em sentido figurado, e em que já
não há os tubarões, também
em sentido figurado, os tubarões do poder.
E aí chegamos à
tal sociedade equalitária, em que cada
um é totalmente autónomo, mas
tem a responsabilidade total de não fazer
coisas que vão interferir com outrém.
E, pronto, já se disse
bastante sobre autonomia.
Sara Aleixo
- Falaste, principalmente, da estrutura social,
cultural e política, não é?
E, é claro que a liberdade do Homem enquanto
pessoa está sempre relacionada com isso.
Mas há possibilidade de autonomia no
ser, na própria pessoa, mesmo vivendo
numa cultura que ainda não atingiu esse
grau de autonomia?
Charlie - O que eu penso é
que, são os grandes artistas, os grandes
filósofos, as pessoas que transformam
um pouco o mundo, e até há muitos
anos atrás, quando não existia
a chamada cultura de massas, porque não
havia sistemas de comunicação,
e a comunicação estava muito vedada
àqueles que viviam do ócio e do
trabalho dos outros, aí havia uma cultura.
Depois, havia sempre umas ovelhas
ranhosas, do extracto burguês ou até
de classes em ascensão, pequeno-burguesas,
mas havia sempre umas pessoas que tinham grandes
graus de autonomia.
E, o que é o grande grau de autonomia?
É um Picasso, que faz algo de totalmente
novo, fora do inconsciente colectivo e daquilo
que é esperado ver numa determinada época
histórica. E, portanto, são essas
pessoas com grande autonomia que, normalmente,
se revelam essa autonomia, o poder, imediatamente
entra em choque com elas.
Sempre que alguém revela
um pensamento autonómico, no meio da
massa de pensamento social, imediatamente, as
estruturas do poder, começam a exercer
pressão sobre as pessoas que estão
a ser demasiado autónomas, que são
um perigo para a estrutura social vigente.
O poder o que é que acaba por fazer?
Normalmente, exerce uma grande pressão
sobre esses seres autónomos, que, por
essa pressão e porque são muito
autónomos, acabam por geram obras ainda
mais perigosas para o sistema, cada
vez mais fortes, tornando-se ainda mais autónomas,
porque têm conceito de liberdade pessoal
e têm um pensamento muito pessoal, muito
diferente do pensamento ou inconsciente colectivo
social vigente num determinado momento histórico.
Mas, o que acontece é
que desde a época hippie dos anos sessenta
que a estrutura do poder se tornou bastante
inteligente, ou seja, se calhar, a estrutura
do poder sempre foi muito inconsciente, devido
à sua atribuição ao mundo
inanimado, ou seja, o poder vinha de Deus, para
as pessoas, e há uma grande mudança
radical histórica, em que as pessoas
não tinham autonomia, nem podiam contestar
o poder, não podiam fazer nada, porque
ele vinha do inanimado, de fora, de Deus, era
respeitado, não havia qualquer contestação.
E são esses seres autónomos, durante
a cultura, que se vão revolucionando,
vão sendo autónomos, e vão-se
rebeliando contra essas coisas.
O que aconteceu é que,
com a lógica do capitalismo e com a distribuição
do poder, não por uma só figura
nomeada por acto do poder, ou da guerra, ou
das armas, ou do cosmos, de Deus, ele deixou
de ser inconsciente e passou a ter consciência.
Os serviços de informação
do mundo e do poder cada vez têm mais
consciência sobre a manipulação
das culturas e das massas.
Foi esta mudança radical
que trouxe um novo fenómeno que é,
persegue-se as pessoas autónomas mas
cria-se-lhes duas hipóteses: os que são
pouco autónomos, acabam por aceitar uma
situação no poder e desenvolver
a sua filosofia, já não como autónoma,
mas dentro de uma instituição,
numa lógica do poder.
E, depois, há aqueles
que são irrevogavelmente indestrutíveis
e que vão continuar...
Mas, o que é que o sistema
faz a esses? Assim que eles morrem ou param
o sistema pega no que fizeram, retira-lhes as
categorias que lhe interessam, em termos culturais
capitalistas e vende-os.
Ou seja, o espírito
idealista freak dos anos setenta, hoje é
vendido pelo sistema capitalista comercial e
é perfeitamente integrado.
Por exemplo, na área
do RocknRoll, já não
é possível fazer revoluções
porque o sistema já chegou a esse nível
de autoconsciência de delimitação
de autonomia das pessoas.
Sempre que surge alguém que é
autónomo em relação ao
pensamento vigente duma cultura, a gente ou
compra-o, ou mata-o e depois vende-o, e, portanto,
há aqui uma nova lógica que é
extremamente difícil de controlar, e
era o que estava a falar há pouco.
Há muitos anos sempre houve 0.003 % da
população, que eram os tais pensadores
autónomos que fizeram as grandes revoluções
culturais, sociais, da arte e da pintura, do
cinema, mas o sistema capitalista ainda não
tinha auto-consciência e não sabia
lidar com os tais pensadores autónomos
que desestruturavam sempre a sociedade em termos
do futuro.
Reestruturavam a sociedade em termos de poder
e, por isso, é que esta questão
da autonomia vai sempre chocar com o grande
fenómeno que é o poder, e o poder
tem como objectivo diminuir a autonomia das
pessoas.
Sara Aleixo
- Concentrar a autonomia num único polo
que é o poder: no fundo, autonomia e
poder estão sempre em relação...
Charlie - Sim, o poder é
que tem, no fundo, a liberdade volitiva (quer
dizer, de escolha e exercício de vontade),
no mundo e nos seres humanos. Lembrei-me agora
de uma entrevista sobre um estudo, em que se
chegou à conclusão, que afinal,
quem é mais rico e tem mais poder, tem
uma super longevidade que ultrapassa o comum
do não-autonómico, do trabalhador,
em vinte ou trinta anos de duração.
E não é só
a questão do poder comprar saúde,
ou poder comprar mais médicos ou mais...
não é essa a grande questão.
A grande questão tem mesmo a ver com
o exercício da capacidade volitiva, ou
seja, quem a exerce tem a possibilidade de durar
muitos mais anos. Mas nesta sociedade capitalista
essa capacidade está concentrada em quem
tem o poder, são esses que exercem a
sua vontade.
Sara Aleixo
- A vontade de poder...
Charlie - Não, não
é a vontade do poder, tem de se chegar
a Schopenhauer, que disse que a vontade era
tudo no ser humano, Nietzsche era perigoso porque
alguém, mais tarde, interpretou mal o
seu conceito de vontade, pois isso fez nascer
o fascismo. Era um escritor autónomo
contra o poder, que acaba por ser usado pelo
poder.
Já nessa altura, para
explicar a vontade fascista, ou seja, a vontade,
que hoje tem as últimas repercussões
nas sociedades satânicas...
Agora é preciso falar
de vontade como se fala de autonomia.
É que existe a vontade nas organizações
satânicas, que pensam, que interpretam
Schopenhauer a um extremo, à sua maneira
que é: a vontade é exercida pelos
que têm o poder e podem usar os outros
como objecto, desde que detenham um poder superior.
Nessas organizações satânicas
há os que violam, os destroçados,
os cortados, os que destroem mentes, mas são
os que entram, os que estão no poder
não se destroem psiquicamente, e se calhar,
duram mais anos por poder exercer a sua capacidade
volitiva.
Porque ao não exercer a minha vontade,
eu não sou autónomo... a vontade
é uma energia e se eu não for
autónomo eu consigo exercê-la sobre
o meio ambiente, mas se eu não a exerço,
nós somos energia e essa energia volta-se
para dentro e destrói-nos, porque, se
calhar, não é o trabalho físico
que leva o trabalhador a morrer mais cedo, é
precisamente a estrutura em que ele está
inserido que não lhe permite exercer
nenhuma capacidade volitiva, e que o acaba por
consumir, não só fisicamente,
mas espiritualmente e, depois, isso vem-se a
verificar na própria família.
Porque, quando ele chega à
família, onde ele supostamente tem o
poder, ele exerce essa capacidade volitiva de
uma forma satânica, sem compreender que,
para além da nossa vontade, está
a vontade de todos os outros que nos rodeiam.
E é esta a grande questão da democracia,
da policracia, ou multicracia, se se quiser.
Sara Aleixo
- Agora, voltando ao caso do trabalhador, como
pode uma pessoa exercer a sua vontade... como
há possibilidade de autonomia quando
nós estamos sempre em relação
com os outros? Já falei com uma pessoa
que me disse que é impossível
porque estamos sempre dentro de estruturas mentais,
culturais, sociais... Estamos sempre em co-relação,
não é? Como é possível
a autonomia?
Charlie - Acho que isso está
dentro do conceito de autonomia destituída
do conceito de poder, autonomia é agir
com responsabilidade e responsabilidade quer
dizer exercer a minha vontade, desde que esse
exercício não vá impedir
o outro de exercer a sua vontade.
Sara Aleixo
- E, agora, o contrário, e se a vontade
dos outros nos impede de exercer a nossa?
Charlie - Aí, há
diferença entre vontade e acção,
ou seja, nós somos pessoas com alguns
valores permanentes, que, quando entramos em
interacção social, dependemos
de valores virtuais (em aproximação
a comungar com os valores dos outros) e isso
faz parte da nossa própria adaptação.
Vamos conhecendo uma pessoa e vamos vendo até
que ponto o exercício da nossa vontade
não invade o território da outra
pessoa. Só que há pessoas que
não têm autonomia e que gostam
que o seu território seja invadido, há
outras que têm uma grande autonomia e
não o permitem...
Portanto, a grande questão
que tu pões nasce da interacção.
Claro que tem de haver sempre relações
culturais, educacionais a explicarem à
pessoa que a autonomia não é um
conceito capitalista, de continuar a exercer
a nossa vontade derrubando tudo e todos, não
vendo as consequências das nossas acções
sobre os outros, mas partir para um novo conceito
de autonomia que tem a ver com exercer a minha
vontade sem que tenha de atropelar os outros.
Mas nós somos maleáveis
e humanos, e o exercício da vontade...
Nós podemos ter vontade de fazer uma
coisa, mas quando somos inseridos numa estrutura
social, como temos que ser, quando vou ter de
exercer a minha vontade, estão outras
pessoas.
Nesse exercício da vontade, mas precisamente,
nós estamos em social, não estamos
a nossa vontade isolados. E então aí
vai haver um jogo, mas aí tem a ver com
quem está educado democraticamente, ou
não, vai haver aí um jogo, em
que se chega a um consenso de vontades, mas
como cada um, se foi educado dentro do sistema
democrático, participou na elaboração,
e depois , na aceitação de que
a sua vontade afinal, não poderia ser
exercida por ali, e se exercer por ali, o outro
fica melhor e a pessoa também ganha com
isso, mas isto tem sempre a ver com a educação
cultural.
Sara Aleixo
- Mas há sempre condicionalismos, quer
dizer, há uma pessoa que nasce, a sua
autonomia vai ser completamente condicionada
pela educação familiar, pela zona
do país em que vive, as escolas que frequenta,
o tipo de pessoas que conhece. Onde é
que está a vontade pura?.
Charlie - Não confundir
vontade com autonomia, autonomia é uma
coisa que se ganha pelo exercício da
nossa vontade. Aquela trilogia do que cada um
pensa ser, autonomia, liberdade e responsabilidade,
entra em função quando nós
vamos exercer a nossa vontade. E, digamos que
é a interacção entre esses
factores que determina a nossa maneira de determinar
a nossa vontade sobre os outros.
Mas, no fundo, penso que tem a ver com os dois
conceitos de autonomia, exercer a vontade sem
olhar para fora e tentar colocar-se na situação
do outro, sentir o outro, e exercer autonoma,
capitalistica e fascisticamente a vontade,
sem ter interesse pelas repercussões
que isso tem no exercício de vontade
da outra pessoa.
A sociedade pode criar três
tipos de educação que modelam
em termos sociais esses três vectores
da autonomia-responsabilidade-liberdade.
Descobriu-se que se pode criar
três tipos de educação:
a educação laissez faire- laissez
passer, nomeiam-me líder daquilo mas
eu não lidero nada, não quero
saber o que se está a passar.
Depois há o democrático, nomeiam-me
líder para eu por aquelas pessoas a interagir
sem que eu esteja lá a exercer a minha
vontade, mas o objectivo tem de ser, pôr
todas as pessoas a exercer a sua vontade.
Ou então cria-se uma educação
fascista como a dos meus professores de há
vinte anos.
apesar que todos eram bons professores...só
que metade deles eram autocráticos
Chegou-se á conclusão
de que só no grupo democrático
é que as pessoas mudavam pelo exercício
da sua vontade
Talvez, descrevendo-se um exemplo,
seja mais fácil. Pretendia-se que os
americanos passassem a comer miúdos de
toda a carne porque se estava durante a guerra.
Ninguém gostava de miúdos e deitava-se
fora.
Mas como se estava durante a guerra resolveu-se
aproveitar e então o Kurt Lewin criou
três tipos de grupos, experimentando aqueles
três tipos de liderança educacional,
para ver em qual desses grupos se começava
a comer esses miúdos.
Chegou-se à conclusão de que no
grupo Laissez faire, laissez passer, toda
a gente falou sobre aquilo, mas ninguém
ganhou os hábitos de consumo. No grupo
de liderança fascista (directiva), pode
ter havido alguém que mudasse, mas porque
estabeleceu uma relação de medo
com o educador directivo.
Descobriu-se que no grupo de liderança
democrática, onde estava um indivíduo
a pedir às pessoas que dissesse como
é que se fazia, que fosse para casa pensar
que petiscos se poderiam fazer e depois discutirem-no
em grupo.
Nesse grupo, onde todas as pessoas exerceram
as suas vontades, tinha-se conseguido que 90%
do grupo ganhasse hábitos de miúdos.
O que está subjacente nesse tal grupo
social é o modelo de educação
do sistema educativo que pertence ao poder e
é gerido por ele. Isto traz-nos a grande
questão, que é a mais antiga,
temos de voltar a Shakespeare, entre o ser e
o não ser.
Sara Aleixo
- Mas como é que se passa a ser? As sociedades
democráticas são as que conseguem
promover mais autonomia nas pessoas, não
é? Isso passa a ser um ciclo...
Charlie - Está sempre
em ciclo. Vão evoluindo conforme vai
evoluindo a cultura, vai evoluindo a consciencialização
das pessoas que estão sujeitas a esse
ciclo, a essa educação e a essa
cultura. Isto é o ciclo constante do
ovo e da galinha. Ovo e galinha são uma
unidade estrutural indissociável. Ovos
produzem galinhas, que vão produzindo.
São um só ser.
Sara Aleixo - Nesse caso, como
é que se põe o ovo da autonomia
numa sociedade fascista?
Charlie - Modificando o tal
sistema de educação, no fundo,
com a diversidade de comunicação
cultural, podem estar abertas algumas hipóteses
das pessoas seguirem alguns modelos novos de
alternativa estruturalista.
O problema é que as pessoas se vão
reportar a revoluções a-históricas,
que aconteceram há muitos anos, para
hoje fazerem a revolução, e hoje
não existe nenhuma filosofia idealista
revolucionária, que provoque um estado
nascente, do Dr. Alberoni, que, na sua
tese de doutoramento que se chama A Génese,
levanta a tal questão da vontade autonómica
de grupo. O marxismo era um idealismo muito
bonito que leva ao fim equalitário, sem
exercício do poder, todos teriam acesso
ao poder.
Quando os seres humanos pegam
nos idealismos, é preciso perceber o
estado volitivo das pessoas que acreditaram
nesse idealismo, e já está aqui
a diluir-se a vontade pessoal colectiva.
O estado nascente é,
precisamente, quando as pessoas olham umas para
as outras perceberem que todas elas têm
um estado volitivo comum, não há
um estado volitivo pessoal. Esses tais estados
nascentes, que os artistas e filósofos
seguiram, quando tomado pelos indivíduos
e transformados em instituição...
Ele, enquanto idealista, tem a vontade de uma
multidão se tornar autónoma e
ser democrática, mas aparecem depois
pessoas que tomam o poder e que utilizam esse
idealismo e esse exercício da vontade
pública, transformando num sistema de
regras que vai destruir exactamente esse estado
idealístico e transforma-o numa coisa
material, se formos a um Lenine ou Staline,
é criar um sistema cultural que destrua
a vontade colectiva a zero, passando eles a
exercer a sua vontade (um bom exemplo de mau
exercício da vontade).
Lenine, mandou matar milhões de pessoas
para exercer a sua vontade em nome de um idealismo.
O grande problema é que os ideais mais
lindos do mundo, por exemplo, o ideal de Cristo,
em nome do qual se assassinou mais pessoas na
história.
Porque as instituições, com o
seu poder, pegam na cultura transformando-a
pelos meios de comunicação, para
poderem exercer a sua vontade. Quanto mais
bonito for o ideal nascido, mais morte,
sangue e destruição pode provocar.
Como no caso de Cristo, os novos idealistas
do marxismo, ao tomarem o poder, tornam-se grandes
assassínos, esses ideais de comunidade,
igualdade, fraternidade e solidariedade, todos
estes valores que estão normalmente subjacentes
aos ideais de exercício de vontade da
multidão, os do grupo, são imediatamente
tomados sempre pela estrutura do poder. O que
se põe é que o poder concentrado
vai diminuindo na história, mas no seu
limite lógico-matemático, ele
nunca será destruido e nunca haverá
igualdade. Isto é bem explicado na rábula
do Triunfo dos Porcos, de George Orwell.
Os animais de uma quinta, revoltam e expulsam
o dono, mas após os primeiros momentos
de euforia colectiva, o grupo dos porcos toma
o poder através dos cães como
polícias, e apoderando-se da comida para
si próprios, voltando os outros animais
ao estado primeiro de subjugação.
Exercício do poder corresponde à
possessão material da terra que pertence
a todos.
Por exemplo, 5% da população que
detém 95% do poder material do mundo,
destrói 95% da terra, em termos de poluição.
A autonomia está sempre ligada portanto,
ao poder, que jamais será destruido,
nunca podendo chegar a haver autonomia pura.
Porque há uma força
imanente do inconsciente colectivo histórico
e da cultura que, mesmo que haja uma revolução
e a capacidade de exercício da autonomia
colectiva, há sempre uns do grupo, ou
vindos de fora, que tomam o poder e exercem
a sua vontade e detém os meios de produção
e materiais.
Mesmo havendo um estado gasoso de desestruturação
social, devido ao enraizamento do poder,
acaba sempre por se reestruturar e destruir
esse tal ideal que permite o exercício
da vontade colectiva... Não é
possível criar o estado idealista que
possa destruir o poder para sempre.
Estes estados nascentes autonómicos
da multidão, parecem ser um mal necessário
para o poder, para que o poder dominante nunca
estagne, criando as condições
para a sua perpetuação, com uma
parecença com a diversidade biológica
de adaptação, complexificação
e crescimento.
Apesar do poder dos reis se
ter desmultiplicado nos parlamentos, há
diferenças culturais, por exemplo na
Holanda de comunalismo democrático, um
regime em que as pessoas participam mais nas
decisões políticas, mas nunca
se atingirá o estado autonómico
do poder para todos.
Sara Aleixo
- Porque será que que as pessoas se vão
tornando cada vez menos autónomas? Há
bocado falavas do artistas, por exemplo, um
Picasso é mais difícil de encontrar
hoje...
Charlie - O que falta hoje
é a pressão directa, até
um determinado momento histórico, as
pessoas eram atacadas pelo poder e tomavam consciência
das figuras que os atacavam. Hoje vive-se com
uma cortina chamada media que não nos
permite objectivar qual é o poder a desestruturar
ou destruir. O poder utilizou o nascimento da
televisão enquanto mecanismo não
interactivo e só de descarga passiva
da cultura sobre a multidão. A Net traz
um novo princípio, mas é baseado
na televisão.
Sara Aleixo
- Há pouco falavas da Net e da ambiguidade.
Cada vez há mais informação,
mas também há muita manipulação...
Charlie - Menos comunicação.
Comunicação quando falo de valores
humanos íntegros, há mais comunicação,
mas a comunicação da liberdade
era feita de grupo em grupo e não através
de um objecto como um computador, ou seja, para
fazer a revolução hoje, não
há ideais, porque há interposição
material entre o espírito das pessoas
que estão talvez a manipular conceitos
culturais comunicando e falando de valores humanos.
A comunicação humana face a face
é diferente da comunicação
com o interface máquina.
Usando estruturas fora do nível do espírito,
pois estão no nível material,
por isso é que existe uma decrescente
comunicação consoante se vão
desenvolvendo os meios de comunicação,
que são sempre desenvolvidos segundo
as estruturas que o poder lhes dá.
A Net assusta o poder, porque
pela primeira vez alguém pode por notícias
autónomas no ciberespaço.
A Net é a primeira organização
mundial que dispõe de autonomia, mas
a publicidade já a invadiu, e tem a lógica
do poder. É a primeira organização
sem estruturas de poder que definam as regras.
O grande sonho e o grande susto para o poder
é dominar este grande meio de comunicação,
que afinal, pela primeira vez permite, em termos
históricos, uma autonomia pessoal sobre
o poder, é um mecanismo totalmente autonómico
pessoal. Consegue-se por uma página na
Net, apesar do FBI nos poder prender daqui a
15 dias, ela será distribuida a toda
a gente pela comunidade cibernauta.
A Net traz isto, mas o poder arranja sempre
maneira de se adaptar a estes novos autonomistas.
As vendas na Net tiraram-lhe força. Devia-se
criar uma Net que só tratasse de questões
do espírito e não das coisas materiais
e das estruturas de produção.
A Net já começou a perder o seu
cariz autonómico, pois já tem
objectivos do sistema educacional cultural dominante.
Ele come todas as autonomias
e transforma-as em meios de produção,
que estão inseridos dentro de regras
e não são ideais.
E os ideais permanecem por muito pouco tempo.
O grande problema da nova geração
é a ausência de ideais, porque
o poder chegou àquele nível de
controlo e prevenção, tem consciência
que cada vez mais, com os sistemas de comunicação
e, chamar-lhes-ia sistemas de controlo que cada
vez crescem mais.
Cada vez mais estes sistemas que podiam ser
nauto-liberalistas, serão mecanismos
de controlo do poder.
E já estamos num ciclo fechado na entrevista,
há um certo tempo, porque chegámos
à conclusão que a estrtura do
poder se manterá eternamente, apesar
das suas desestruturações, conforme
a força do ideal que as desestrutura,
mas que se voltam imediatamente a reestruturar,
assim o ideal autonómico volitivo geral
é transformado numa estrutura de poder
até ao próximo fenómeno.
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