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João Fiadeiro é um pensador mais do
que um bailarino, é um criador mais do
que um coreógrafo. O seu contributo para
a dança é algo de subliminar, algo implícito
que pode passar ao lado de muitos que
criticam a sua ideia de que "a dança
não passa (necessariamente) pelo corpo".
Mas essa ideia reside no facto de que,
antes da expressão corporal, deve existir
um sentido, uma razão, e por isso a sua
dança é uma dança da razão. Razão no sentido
de significar, de querer dizer algo de
necessário, de essencial, porque nada
pode ser feito ao acaso, tudo deve ser
consciente e ter...uma razão de ser.
O seu trabalho gira em torno do eu,
do self enquanto consciência de si, e
desse espelho que é o outro. É um trabalho
que procura uma fenomenologia do gesto
ligado ao pensamento. Considero o seu
trabalho como uma técnica, mais do que
um estilo, porque toda a forma com que
lida com o corpo se direcciona no sentido
de prepará-lo para a interpretação.
O facto de usar a improvisação não exclui
a existência de um fio condutor da composição.
Ela (a improvisação) serve antes para
eliminar qualquer condicionalismo técnico,
pondo em evidência essas limitações e
exigindo uma hiper-auto-consciência para
as destruir.
Este processo baseia-se na clarificação
da intenção, do objectivo, que se consegue
através do conhecimento de si, da imagem
de si, e da consciente manifestação do
desejo, da motivação.
Esta relação entre o self e a consciência
pode ser demonstrada no esquema que se
segue.
1. O acidente (experiência transfiguradora
do ser) transporta o ser para uma nova
realidade,acompanhado pela consciência,
sendo, no entanto, uma experiência transitória,
ao que se segue um retorno à identidade
primária.
O trabalho processa-se numa sequência
constante de situações inesperadas, face
às quais o ser é obrigado a tomar determinadas
decisões, sendo que todas elas deverão
ter um sentido relacionado com a construção
do objecto final. Isto deixa-nos vários
problemas: será necessário ter um objectivo,
à partida, que se deverá manter até ao
fim, o que é um problema, tratando-se
de uma composição em tempo real; cada
decisão tomada deve ser aceite e orientará
a conduta do intérprete até ao fim, podendo
tomar sempre um caminho completamente
diferente, de cada vez que se trabalha
um mesmo tema.
No entanto, é aqui que reside a dificuldade
e o interesse neste tipo de processo.
O que por vezes pode ser considerado como
uma obra inacabada é assumida como tal
e é por esse eterno risco que ela tem
o seu valor, podendo assim ser considerada
como uma técnica artística em constante
evolução.
O problema é que cada vez menos a arte
é usada no sentido de estimular a crítica,
o questionamento, de provocar inquietações.
Hoje em dia, os espectáculos de dança
são aceites sem reservas, como um mero
divertimento, um "objecto-espectáculo
pronto a consumir". É preocupante
a letargia em que estamos imersos, a forma
despreocupada com que aceitamos as condições
que nos impõem, o nosso espírito de "laisser
faire, laisser passer". João Fiadeiro
quer provocar ansiedades, questões, estados
de espírito mais despertos e, por isso,
é recusado, criticado, duvidado.
Quando se revela a verdade, sem dramatismos
ou teatralidades supérfluos, ela incomoda
, ela é tomada por vazia de significado,
porque nos habituámos ao falso self como
forma de manipularmos os outros, para
os abranger no nosso mundo de interesses
pessoais e os podermos controlar para
satisfazermos a nossa vontade pessoal,
a nossa ânsia pelo poder.
Falo em termos filosóficos porque é
esse o sentido do trabalho de João Fiadeiro.
A dança não tem necessariamente de passar
pelo corpo porque o corpo é pensamento,
porque o cérebro também faz parte do corpo
e, por isso, eles são um só, apesar da
nossa constante teimosia na cisão entre
ambos.
O seu trabalho processa-se numa dimensão
subliminar porque retorna às origens do
corpo e da mente, da sua relação milenar,
tentando redescobrir o verdadeiro sentido
do movimento, e este está relacionado
com o desvendar o véu da realidade, revelar
a sua verdadeira essência, criando um
estado de pensamento crítico, transformador.
Porque a arte existe para nos confrontarmos
com a realidade, para pensarmos nela,
para evoluirmos através dessa confrontação
e para a podermos mudar através dessa
consciência.
A dança não passa necessariamente pelo
corpo porque ela reside na razão, no sentido,
na intenção, e todos estes existem no
pensamento, sendo o corpo um veículo de
transmissão, de expressão. Por isso, João
Fiadeiro não negou o corpo à dança, mas
retirou-a do corpo e devolveu-a ao seu
devido lugar: o espaço total, o exterior
e o interior.
O Trabalho...
O seu método de composição baseia-se
num conceito de tempo-real, onde a coexistência
de determinados factores num enquadramento
espacio-temporal específico vai regular
a utilização dos elementos de execução
por parte do performer. Aqui são fundamentais
o tempo que precede a acção (invisibilidade)
-"espaço" interior onde são
pensadas e tomadas as decisões; o tempo
e o espaço em que a acção se torna visível
(visibilidade); e o momento em que o espectador
"lê" a acção (legibilidade),
surgindo assim um conceito de "lesibilidade"
que orienta a elaboração da composição.
Esse processo é cíclico porque o intérprete
está constantemente a ser confrontado
com um espaço exterior que lhe sugere
determinadas emoções, às quais deve ser
sensível, identificando e seleccionando
as respostas adequadas a esse momento.
A sua acção terá de ser guiada pelo seu
próprio livre arbítrio, através da sua
própria consciência, o que o coloca num
território perigoso, arriscado, pois qualquer
decisão orientará toda a performance para
determinado caminho, ao qual não se pode
fugir.
Esta procura interior, onde não existem
pontos de referência (ou, pelo menos,
não deveriam existir...), é duplamente
inibidora e estimulante pois despe o intérprete
de todo o "material" a que está
habituado, obrigando-o a procurar um verdadeiro
sentido para a acção. É uma procura da
sinceridade, mas não num sentido poético,
da sinceridade enquanto realidade, nem
sempre apaixonante...
Nos seus solos, João Fiadeiro usa sempre
todos os elementos de uma forma clara,
definida, assumida. Enquanto conta a sua
história, somos absorvidos pela sua entrega
absoluta ao momento presente, ao seu verdadeiro
sentir. Todos os materiais são válidos
para si: a dança, o teatro, as artes plásticas,
a música, todo o material humano é requisitado.
Por isso não pode ser simplesmente dança,
mas também não pode deixar de sê-lo. É
uma arte total, onde a mensagem é multiplicada
nos vários elementos cénicos, é um cocktaill
onde se encontram bocados de existencialismo,
de pós-modernismo, de expressionismo e
de nada, misturados com tudo.
O livre arbítrio de Sartre, o Tanztheater
expressionista de Pina Bausch, o "teatro
da crueldade" de Artaud, todos se
revelam nesta espécie de "festival
dos malditos" que João Fiadeiro encena.
Mas que não se espere um ambiente soturno,
intimista; pelo contrário, João Fiadeiro
prefere o sarcasmo, a ironia. Nos seus
quadros de humor negro, sentimo-nos constrangidos
por uma vontade imensa de gargalhar ao
mesmo tempo que nos envolve uma intensa
angústia, provocada pela identificação
dos temas realistas que nos propôe.
Os seus movimentos são um reflexo deste
imaginário, onde se sente uma leveza e
liberdade do corpo face à formalização
do gesto, talvez influenciada por um conhecimento
das técnicas ligadas às artes marciais,
que promovem essa ideia de que o corpo
não é uma matéria rígida, mas antes um
sistema dinâmico de energia. Mas, ao mesmo
tempo, encontramos no seu corpo a elegância
clássica da forma, pelas linhas curvas
que, por vezes, os seus gestos assumem.
Uma relação forte com os elementos teatrais,
faz com que as suas obras contenham sempre
essa linguagem, expressa tanto nos gestos
quanto na própria utilização da palavra,
dotada de uma sonoridade musical, que
transmite quase sempre uma mensagem pessoal,
dirigida directamente ao espectador. Essa
comunicação presente em todos os espectáculos,
quase infantil, é um apelo constante,
que nos persegue quando abandonamos a
sala de espectáculo.
Podemos mesmo não gostar do seu trabalho,
mas ele intriga-nos, incomoda-nos, deixa
marcas que nos acompanharão para sempre,
porque nos tocou. É impossível ser-se
indiferente a esse contacto.
É, principalmente, uma vontade de abanar
alguns neurónios que teimam em manter-se
inactivos, preguiçosos, enquanto há ainda
tanto a fazer pelo mundo e pela humanidade.
E é este o lugar da arte, é essa a sua
função na evolução cultural, na evolução
das mentalidades. É este o objectivo conseguido
pelo seu trabalho e, por isso, há-que
agradecer o seu contributo para a dança,
a arte e a cultura, não só em Portugal,
mas em todos os lugares por onde tem exercido
essa sua "missão".
O Percurso...
João Fiadeiro nasceu em Paris, em 1965,
fixando-se em Portugal em 1974, após uma
infância itinerante.
Praticou natação e artes marciais antes
de, em 1983, ter iniciado a sua formação
enquanto bailarino na Escola de Dança
Rui Horta e no Ballet Gulbenkian.
Entre 1984 e 1988. desenvolveu a sua
técnica de dança segundo várias abordagens
em Nova Iorque, Berlim e Lisboa, nomeadamente
o contact improvisation, de Steve Paxton,
e a Nova Dança Americana, com coreógrafos
como Trisha Brown e Wim Wanderkeybus.
De 1986 a 1989, foi bailarino da Companhia
de Dança de Lisboa, do Ballet Gulbenkian,
do Peridence Ensemble, da Companhia Mark
Haim & Friends e de Franscisco Camacho.
Iniciou a sua actividade coreográfica
em 1989, com o trabalho "Plano para
Identificar o Centro" para o XII
Estúdio Coreográfico do Ballet Gulbenkian,
continuando esse trabalho criando coreografias
para diversas instituições e escolas,
donde se realçam as obras: "Do Medo,
da Ilusão e da Queda" (1990) e "Bonjour
Tristesse" (1996) para o Ballet Gulbenkian;
"Act of Cumplicity" (1989) e
"Estudos" (1992) para os alunos
finalistas da Escola de Dança do Conservatório
de Lisboa; "Sem Título" (1992)
para a Companhia CêDêCê de Setúbal; "Amor
ouSexo" (1995) para os alunos finalistas
do Centre National de Danse Contemporaine
de Angers (França).
Também em 1989, fundou, juntamente com
Vera Mantero e Francisco Camacho, a cooperativa
'Pós d'Arte, um forum de discussão artística.
Em 1990, fundou a Companhia RE.AL (REsposta.ALternativa),
para a qual criou, entre 1990 e 2000,
as seguintes coreografias: "Retrato
da Memória enquanto Peso Morto" (1990),
"Solo para Dois Intérpretes"
(1991), "O que Eu Penso que Ele Pensa
que Eu Penso" (1992), "Branco
Sujo" (1993), "Recentes Desejos
Mutilados" (1994), "Amor ou
Sexo" (1995), "Self(ish) Portrait"
(1995), "O Desejo Ardente Deve Ser
Acompanhado por uma Vontade Firme"
(1995), "Vidas Silenciosas"
(1997), "Mindfield" (1998),
"...e inversamente" (1998),
"O que Eu Sou Não Fui Sozinho"
(2000).
Desde 1995, colabora regularmente com
o encenador Jorge Silva Melo, enquanto
responsável pelo movimento. Participou
na produção "Germania III" (1997),
de Heiner Muller, com encenação de Jean
Jourdheuil. Tem colaborado frequentemente
com os Artistas Unidos, tendo encenado,
neste âmbito, a peça "À Espera de
Godôt", de Samuel Beckett, em 2000.
Como professor convidado, João Fiadeiro
tem leccionado técnicas de Nova Dança
e Composição em várias estruturas de ensino,
nacionais e estrangeiras, sendo, actualmente,
professor auxiliar convidado no curso
de Dança da Faculdade de Motricidade Humana,
em Lisboa.
No que diz respeito à Companhia RE.AL,
é importante realçar, de entre os vários
projectos de formação e apoio a novos
criadores, o Projecto Olho Real, iniciativa
em conjunto com a Olho Associação Teatral,
que produziu e divulgou, entre 1996 e
1997, o trabalho de novos criadores; e
o "Lab - Projectos em Movimento",
que, desde 1993, tem vindo a proporcionar
espaço e meios técnicos para a pesquisa
a artistas contemporâneos, workshops,
conferências, seminários e debates, promovendo
um local propício para a investigação
artística e o necessário confronto com
o público, teóricos da arte e outros artistas.
Desta última iniciativa resultou uma
revista/livro, o DOC.LAB(1999), onde estão
reunidos textos de artistas, público e
participantes (neste caso, do LAB 8),
sobre a questão da relação entre a pesquisa
invisível do artista e a sua partilha
pública, já que o objectivo prioritário
do LAB é essa parte invisível.
Bibliografia...
FAZENDA, Maria José. SANTOS, Ezequiel.
Outros. Movimentos Presentes - Aspectos
da Dança Independente em Portugal. Lisboa:
Edições Cotovia.1997.
DOC.LAB Nº0. Vários autores. Lisboa:
RE.AL (Resposta.Alternativa). 1999.
RIBEIRO, António Pinto. Dança Temporariamente
Contemporânea. Lisboa: Vega.1994.
BATALHA, Ana Paula. XAREZ, Luís. Sistemática
da Dança I - Projecto Taxonómico. Cruz
Quebrada: Faculdade de Motricidade Humana.
1999.
Videografia...
Self(ish) Portrait. João Fiadeiro. Lisboa:
Companhia RE.AL/João Fiadeiro. 1995
Nota: Grande parte do trabalho foi elaborada
com base nas aulas que João Fiadeiro lecciona
na Faculdade de Motricidade Humana, tendo
como princípio o seu conceito de Composição
em Tempo Real, na visualização de espectáculos
ao vivo do coreógrafo, nomeadamente, "I
am sitting..." e "O que Sou
Não Fui Sozinho"("N'A Capital,
2000), e em material cedido pela Companhia
RE.AL. |